Comentando o Volume #62 – Gen Pés Descalços vol. 1

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Chegou o sábado e com ele um CoV bem especial, porque meus amigos e amigas, que obra.

Hadashi no Gen é uma obra de Keiji Nakazawa e que foi publicada nas páginas da Jump entre 1973 e 1974, finalizada com um total 10 volumes encadernados. Ela também foi adaptada para diversas mídias, desde cinema até ópera.

No Brasil, a obra foi publicada duas vezes pela editora Conrad com o nome de Gen – Pés Descalços. A primeira em 1999 mas que foi cancelada logo no quarto volume, a segunda foi em 2011 numa edição que eu não poderia usar outra denominação que não ÉPICA. Essa segunda versão foi finalizada mês passado após muitos atrasos de publicação.

Vou ser bem honesto com vocês, eu não conhecia Gen. Como muita gente me dizia que era incrível e tal, resolvi caçar ele para ver o porque de tanta propaganda. Quando o carteiro me entregou minha caixa e eu abri, a primeira palavra que me veio a cabeça apenas de olhar eles foi PERFEIÇÃO. Sério, só ali eu já percebi que Gen seria algo pelo qual eu me apaixonaria.

Mas vamos começar pela história.

A obra conta a vida de Gen, um garoto normal, morador na Hiroshima da década de 40, ou seja, em plena Segunda Guerra Mundial. Sua família é pobre e ainda sofre discriminação por conta dos pensamentos de seu pai que é contrário a guerra, sendo considerado por todos como um antipatriota.

Me surpreendi muito quando comecei a ler o mangá, eu esperava algo muito “histórico” e me deparei com uma obra humana e real. Ele não é “bonito”, ao menos não nesse volume um. Ele é cheio de injustiça e dor, e isso torna ele real, nós conseguimos sentir o peso de tudo aquilo e o quanto as pessoas estão sendo impactadas, é uma leitura que nos causa um desconforto, aquele tipo que a gente pensa “não quero ler isso” ou “não aceito isso”, porque ele nos mostra a verdade nua e crua: o mundo não é correto.

Em alguns momentos eu me irritei com os personagens Gen e seu irmão Shinji, pois eles são aquelas crianças chatas e que mesmo com os pais passando dificuldades, ficam reclamando que querem comer ou não ganharam o brinquedo novo. Mas são crianças, eles não entendem que sua família não pode ter o mesmo que os outros.

Porém um personagem me fez sentir muita raiva é o pai da família, é impossível perdoar ele por tudo que fez sua esposa e seus filhos passarem. Ok, entendo que ele é um homem convicto no que acredita e que realmente a cultura japonesa tem essa questão (ainda mais naquela época) de desonra em voltar atrás do que acredita. Mas mesmo assim me recuso a concordar com um pai que deixa todos passarem dificuldades e apanharem apenas por algo tão pequeno.

E aqui vamos para a questão das injustiças do mundo.

É bem complicado para nós avaliarmos algo que nós não vivemos. Como podemos criticar o excesso de patriotismo de uma nação que viveu com a maior das guerras? Claro, alguns abusos nós podemos criticar, como o professor que mandou a garota ficar nua ou o policial que roubou as batatas. Mas e os outros? Podemos criticar realmente os vizinhos que os consideravam antipatriotas por não aceitarem a guerra? Por terem medo de morrer?

Eu tive uma coincidência interessante com Gen, pois eu estou lendo Zero Eterno para a review da semana que vem e ambos mangás de certo modo contam a história da mesma guerra. É bacana ver como elas concordam nesse ponto, como essa questão de antipatriotismo e de vergonha era forte demais naquela época pelo simples motivo de alguém não querer morrer.

Uma das cenas mais pesadas na minha opinião e que eu acho que deveria ter mais destaque é quando temos o suicídio na academia militar. Kouji tenta contar para os pais do garoto que morreu a verdade, mas eles se recusam a aceitar aquilo, eles não aceitam um filho com medo, eles querem um herói que morreu defendendo sua nação.

Um ponto que quero destacar é a arte, outra coisa que me surpreendeu demais. O mangá é de 73 e ainda conta uma história da década de 40, então eu não esperava uma grande arte.

E nunca fiquei tão feliz de estar errado. A arte de Gen é viva, é impactante. Ela não é aquele traço genérico que vemos hoje em dia (o “modelo Obata”) e mesmo assim não é também aquela arte estranha e fora de proporção que vemos em muitas obras antigas. Ela é perfeita, simples assim.

Gen – Pés Descalços pra mim é a obra mais próxima ao perfeito que temos no Brasil, e muito disso é graças ao trabalho da Conrad na edição física. E falei lá em cima que só de bater os olhos a primeira coisa que pensei foi o quão perfeito era a obra, e isso é verdade.

As capas são fosca e com artes incríveis, elas tem também uma área em destaque que eu fiquei em dúvida se é uma espécie de adesivo ou de verniz. As páginas em offset são impecáveis, parece ser o mesmo papel de Usagi Drop, perfeitamente alinhadas e limpas, e as coloridas em offset mesmo são um espetáculo a parte. As orelhas não apresentam nenhum tipo de imperfeição, diferente de mangás como Planetes e Zero Eterno onde peguei volumes mal dobrados ou desnivelados.

Mas nem tudo são flores, tem um erro da Conrad que me incomodou e não tem explicação nenhuma para mim. A capa está na esquerda e a contracapa na direita, quando vi isso logo pensei que a obra havia sido espelhada, então abri ele pela esquerda e logo me deparei com o Prefácio e depois uma Introdução, ótimo, realmente o mangá foi espelhado e eu comecei certo.

Após ler o prefácio e a introdução, isso já 8 ou 10 páginas depois, eis que me deparo com o aviso que conhecemos: você está começando pelo lado errado. Sério? Voltei para a direita (onde está a contracapa) e folheei uma 3 páginas até encontrar o começo do mangá e realmente descobrir que a leitura estava no sentido oriental.

Parece algo “sem importância”, mas vou apresentar aqui duas coisas que não fazem sentido para mim nisso tudo.

Primeiro é a capa, que se o mangá está em sentido oriental de leitura, porque diabos foi invertida então? Até mesmo o código de barras está lá, mostrando que realmente aquela é a contracapa. É no mínimo estranho.

Porém nada (nada mesmo) é mais bizarro que ver o prefácio e a introdução (destaques no “pre” e no “intro”) estarem NO FINAL do mangá. Em todos os meus anos nessa industria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece

Mas ok, são erros bobinhos (e estranhos) se compararmos ao todo que Gen – Pés Descalços nos apresenta. Fiquei muito satisfeito com a coleção que comprei, e não vejo a hora de comprar na logo o segundo volume (o único que me falta) e devorar essas série.

Escutem o conselho do Haag: se vocês tiverem condições, comprem Gen na promoção que eu falei no post de ontem. Vale muito a pena.


Ah se 20th Century Boys tivesse saído nessa qualidade….

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4 comentários

  1. Eu sugiro muito a leitura de Persépolis caso não tenha lido. É uma obra tão boa quanto esse primeiro volume de Gen. Embora sejam muito diferentes.

    O segundo volume de Gen é bem mais tenso. Desolador de ver as consequências da bomba. É um volume para ler com muita calma, agradecer a Deus por não estar lá e rezar para que isso nunca mais aconteça em nenhum lugar do mundo.

    ——
    Sobre o aspecto físico, a Conrad tinha dessas de fazer mangás parecendo livros. Além de Gen, tenho Adolf do Tezuka e a edição é impecável. Muito melhor do que qualquer mangá publicado no Brasil atualmente.

  2. Pena que não tenho condições de comprar agora, mas acho que vou ler por scan só porque to com muita curiosidade de saber o que aconteceu pra essas coisas que tu comentou aqui terem acontecido (?).

    E até onde sei, Gen não é só conhecido pelo “nicho otaku”, afinal é um clássico e tal, então a Conrad talvez tenha colocado a capa e isso aí na esquerda só pra não estranhar aquelas pessoas que não conhecem a leitura oriental? Sei lá, um chute louco aqui.

  3. Cara, eu estava só esperando uma oportunidade dessas, o mais próximo que cheguei foi aquele leilão no ML, mas agora sim, já garanti os meus. Essa série é sensacional e o acabamento da Conrad é sem comentários. Eu já comentei outras vezes aqui que desde aquela época a Conrad já fazia mangás melhores que os de hoje. DBZ definitivo, Evangelion definitivo, Bambi, Uzumaki, Gen, Adolph, Buda, Vagabond e todos aqueles one-shots do Toriyama. Todos com uma qualidade muito superior as de hoje.

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