Review #48 – Zero Eterno

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A vida de um covarde…

Quarta-feira chegou e trouxe junto com ela uma das séries mais incríveis que eu li nos últimos tempos (e vocês sabem que eu leio coisa).

Eien no Zero é um mangá com a arte de Souichi Sumoto, baseado no livro de mesmo nome escrito por Naoki Hyakuta. A obra foi publicada nas páginas da Mangá Action entre 2010 e 2012, sendo finalizada com 5 volumes encadernados.

No Brasil, a obra chegou em 2015 pela JBC com o nome de Zero Eterno, em um formato especial e exclusivo para livrarias.
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Na história conhecemos Kentaro Saeki, um homem que aos 26 anos sente que sua vida está parada, sem uma grande motivação. Após a morte de sua avó, Kentaro e sua irmã descobrem que seu verdadeiro avô não é quem eles conheciam, e sim um ex-soldado que morreu como kamikaze durante a Segunda Guerra Mundial. Agora ele parte em busca da história desse avô perdido, e conforme vai conhecendo o passado, seu futuro também vai mudando.

O mangá já tinha chamado a minha atenção desde seu anúncio, porém o alto preço (que falaremos mais para frente) me afastou dele.

Um dos principais motivos para a obra ter me chamado atenção foi justamente o fato de envolver fatos históricos em sua narração. Durante a leitura é fácil identificar vários pontos que nós conhecemos da escola, como o ataque em Pearl Harbor e depois as bombas nucleares.

Porém os fatos históricos não são o único ponto principal de Zero Eterno, longe disso, a história realmente nos conquista, ela vai se desenvolvendo em duas linhas de tempo: o presente com Kentaro procurando pessoas que conheceram seu avô, e a segundo no passado, com as histórias sendo narradas por essas pessoas. ZERO_ETERNO_A2_1432850887453593SK1432850887B

Kyuzo Miyabe (o avô morto) é um personagem que nos cativa e faz gostar dele a cada capítulo. Os personagens “narradores” também são convincentes, cada um a seu modo, desde o cara que perdeu o braço e hoje é pobre, até o bem sucedido que virou empresário. Cada um com seus pontos de vista sobre o que se passou, cada um tocado pelo Miyabe de uma forma, uns o odiando e outros o idolatrando. É impossível não se emocionar com o relato do ex-militar que está internado no hospital com câncer (me fugiu o nome) e que possivelmente tenha sido quem melhor conheceu Miyabe.

Outra coisa que gostei é como o autor ligou todas as pontas, como ele deu dois pontos de vista para a mesma história, como ele mostrou vários que vários “narradores” estavam no mesmo lugar, viram a mesma história e a interpretaram de modos diferentes. Isso foi bacana, pois deixa a história mais “real”, se o primeiro tinha achado covardia atirar no americano que caía de paraquedas, o segundo já tinha uma opinião diferente, pois sabia de coisas a mais do que o outro.

No post de sábado sobre Gen – Pés Descalços, eu comentei que era possível encontrar algumas semelhanças nas histórias por ambas se passarem no mesmo período histórico. A coisa mais forte nessas semelhanças é o debate sobre a “honra”. Miyabe é desde o começo considerado por todos um covarde. Alguns o reconheciam como o maior piloto de toda a marinha, mas ainda assim o consideravam uma vergonha, e o motivo era simples: ele queria viver.
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Para os militares japoneses isso era uma vergonha. Ele se recusava a lutar batalhas perdidas, ele não aceitava se sacrificar por algo tão pequeno como “honra” ou “orgulho”, para ele não fazia sentido as decisões japonesas baseadas apenas nisso. E eu achei isso interessante, porque de certo modo dá a entender que um dos motivos para a derrota japonesa era esse nacionalismo exagerado e a arrogância não aceitar que era melhor recuar para se recuperar e lutar num outro dia.

O final de Zero Eterno é um espetáculo a parte e é do tipo que resultado que me fez ter prazer em colocar a obra completinha na estante. Nos últimos capítulos temos uma reviravolta perfeita na história, as últimas pontas se amarram de forma genial e tudo acaba fazendo sentido. E se aquele final já não fosse suficiente, somos ainda surpreendidos com um capítulo conclusivo pelo ponto de vista do próprio Miyabe sobre tudo que ele sentiu em sua última batalha.

Sem contar a cena final que é para se aplaudir.

E aqui eu já vou pegar a arte de Zero Eterno. Ela não é brilhante no que diz respeito a personagens, honestamente, fica devendo bastante nisso, teve alguns momentos em que eu não reconhecia alguns por acharem eles muito parecidos.

Porém esse defeito é facilmente suprimido pela ótima arte no que se refere aos cenários. A riqueza de detalhes nos aviões, navios, ilhas e batalhas é algo de outro mundo. É lindo ver as paisagens, ainda mais em cenas impactantes.ZERO_ETERNO_A4_1439585073521613SK1439585073B

Vamos fechar o post falando então do trabalho da JBC no mangá. Ele foi feito exclusivo para lojas especializadas e livrarias, com um papel offset melhor, capas foscas e orelhas. Isso rendeu um preço um pouco salgado para o mercado, R$ 23,90. Na época comentei com vocês que achava demais, principalmente por ser um mangá desconhecido e com um tema que não tenha tanto “apelo” com o público mais “normal”. Ainda acho o preço salgado, mas admito que Zero Eterno não poderia ter vindo com qualidade menor do que tem.

Porém nem tudo são flores, alguns pontos me incomodaram. Os 5 volumes tem problemas nas orelhas, elas estão desproporcionais e tortas em todos os volumes, em um deles, a dobra da orelha chega a estar tão “para dentro” que nem tapa as folhas, e é possível ver que é na dobra realmente, pois a arte da capa chega a entrar na orelha. “Ah Haag, mas isso pode ter sido um azar no teu volume“, eu até aceitaria isso se fosse como em Planetes, onde um dos meus 4 volumes teve esse problema, porém em Zero Eterno foram todos os cinco volumes, as chances de pegar ao mesmo tempo cinco erros isolados é muito pequena, o mais provável é que esses erros não sejam tão isolados assim. E pra mim, numa obra que tenha um preço tão elevado e se utilize de um rótulo como “qualidade” para justificar tal preço, não é aceitável esse tipo de erro.
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A tradução e o trabalho de revisão, é algo positivo aqui. A JBC fez algo que me agradou muito, que foi colocar todas as notas de rodapé e explicações no final do volume. No inicio até estranhei, pois via os números de referência nos balões mas não encontrava as explicações no canto da página, mas depois que me achei, ficou mais simples e evita uma maior poluição durante a história. Parece algo bobinho, mas eu gostei muito disso e acho que pode ser usado em outras obras.

Um único “poderia ser diferente” foi durante o ataque em Pearl Harbor. Durante todo o ataque, o nome da base foi falado em inglês poucas vezes, o mais comum era ler “Baía das Pérolas” ou “Porto das Pérolas”. É a tradução literal, eu sei disso, mas Pearl Harbor não é um termo tão estranho assim para nós a ponto de precisar de uma tradução, é como chamar Los Angeles de Cidade dos Anjos.

Vamos então ao veredito de Zero Eterno: É um baita mangá, o tipo de obra para quem gosta de boas histórias e coisas diferentes. Merece realmente ser lido e figurar na coleção de quem realmente gosta de coisa boa.

Porém não é barato, e também não é para todos os públicos. Acho honestamente que é um mangá para um grupo bem fechado de colecionadores, e principalmente, que tenham alguns reais a mais sobrando (quem tem?) para investir, ou que consigam boas promoções como a que eu consegui na Saraiva.

Nota: 4,4 / 5

Como comentei antes, é provavelmente uma das melhores obras que li atualmente.

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