Review #71 – O Homem Que Foge

Bom dia nessa terça-feira finalmente fria, hoje vou trazer a review de uma obra bem diferente, mas realmente bem diferente do que o nosso mercado de mangás está acostumado e que me fez pensar muito nesse tal “mercado brasileiro de mangás”. Corro o risco de fazer um post mais de critica aos consumidores do que de analise da obra, mas vamos ver no que dá.

Nigeru Otoko, obra escrita por Natsume Ono entre 2010 e 2011, finalizando com 5 capítulos compilados num volume único. No Brasil, a obra havia sido anunciada pela JBC no começo de 2016, mas apenas agora em janeiro foi lançada com o nome de O Homem Que Foge.

A sinopse oficial da JBC é: “Conta-se que em uma certa floresta vive um urso o qual apenas crianças conseguem vê-lo. Dizem ainda que a pessoa que encontrar a fera, passar um dia inteiro em sua companhia e cativar a sua confiança terá um desejo atendido por ela. Desiludida e cansada dos problemas que chegam com a vida adulta, uma jovem decide se embrenhar na floresta e tirar o mistério a limpo. Uma vez sozinha entre as árvores, ela terá um encontro que mudará o modo como enxerga a vida. Mais do que isso, descobrirá se a lenda é real ou não.

Porém esse é clássico exemplo da sinopse que não tem relação nenhuma com a obra. O que está ai é apenas as primeiras páginas do mangá e não mostra o que realmente a história vai abordar.

Nigeru Otoko fala sobre nossos medos e as coisas que precisamos enfrentar em nossas vidas, porém diferentemente do que a sinopse nos leva a crer, a protagonista não é a jovem que entra na floresta.

O desenrolar da trama é bem incomum para um mangá, admito isso. São poucos diálogos, temos sequências de páginas sem nenhuma palavra ser dita, porém diferente de Blame!, aqui não vemos grandes cenas de ação e batalhas fortes, por isso ele requer uma analise mais profunda do que estamos vendo, pois os detalhes não são tão visíveis quanto em meio um luta de vida ou morte.

A lição que Nigeru é forte para nossas vidas, eu diria até que bem mais forte do que em Nijigahara Holograph. Enquanto vemos na obra de Asano um debate mais direto e que incomoda sobre as pessoas, nós não nos identificamos tanto assim com os personagens e suas emoções doentias. Por mais que a gente até consiga compreender os sentimentos deles, não são sentimentos que tenhamos tão facilmente.

Já aqui, o que vemos é algo que realmente acontece com todo mundo. Quem aqui nunca quis fugir de algo ou de alguma decisão? Quem aqui não tem ou teve o seu “cantinho secreto”? Eu tenho e acredito que todos aqui tem. É impossível não se identificar com o personagem e sua fuga do mundo, ainda mais quando finalmente descobrimos o motivo da fuga. Quem não teria pensado em fugir também?

A arte é diferente, na verdade muito diferente. Isso torna ela ruim? Longe disso, eu amei a arte de Nigeru, não é aquele “padrão” que vemos nos mangás e em determinados momentos eu até achei ela muito bonita (como na imagem anterior). E para falar mais da arte, eu preciso falar dos consumidores.

O fato pra mim é que Nigeru Otoko é uma baita obra, mas que infelizmente foi lançada pela JBC no Brasil.

Ah, fui sensacionalista demais agora nessa frase, mas vou explicar ela. O problema não é exatamente a JBC, e sim o fato de ter sido lançada por uma editora de mangás e consequentemente ser “publicada no mercado de mangás”.

Li diversas criticas a obra por conta de sua arte e história, mas após ler eu não vi o motivo de tanta reclamação. Porém foi ai que me dei conta de algo extremamente importante.

Eu comentei ontem no Twitter logo após ler a obra que se ela tivesse sido publicada por uma editora como a Nemo, a Companhia das Letras ou pela Novo Século através de seus selos para quadrinhos, com toda a certeza O Homem Que Foge seria exaltado como uma das melhores HQ’s do ano. Seria colocada em listas fantásticas ao lado de obras como Maus, O Divino e Pilulas Azuis.

Mas não, ele foi lançado no nosso chato mercado de mangás. Um mercado onde os consumidores são mimados e irritantes. Consumidores que acham que são os maiores especialistas do mundo, que acham que “One Piece é a melhor obra do mundo” ou que nutrem pré-conceitos bestas e enchem a internet de frases como “é shoujo, mas bom” ou “prefiro shonen de verdade“, vocês já devem ter lido alguma vez essas frases ditas por alguém anônimo (ou usando nome de personagem) em algum blog ou grupo de Facebook, então sabem do que estou falando.

O problema dos nossos consumidores é que eles não estão abertos para mais nada, mangás são o auge e nada é superior a isso. Eles se fecham numa redoma e acabou o resto do mundo dos quadrinho. Pior, para alguns, mangá não é quadrinho. Mangá é mangá e quadrinho é quadrinho. Cansei de ser criticado por meus posts fora dos mangás. “Quem quer saber desse tal Sandman, fala do novo volume de Nanatsu“.

Por isso que Nigeru foi tão criticado por nossos “especialistas”, é puramente o fato de que a obra sai da redoma de vidro deles. A arte não segue o “padrão Obata” ou qualquer outro “estilo superior nipônico de arte”.

Tenho um amigo que tem um forte preconceito com os mangás (muito pelos consumidores) mas que pegou Nigeru e achou fantástico. Devorou a obra, olhou pra mim e disse “Poxa, tem mangás assim?“. Qualquer pessoa com experiência em HQ’s vai pegar Nigeru e ver ele como o bom quadrinho que ele é, e mesmo não gostando da obra, com certeza saberá criar uma critica melhor do que o simples “isso não é mangá” ou “isso é um lixo“.

Bom, na minha opinião (se é que alguém leva ela a sério) é O Homem Que Foge é uma baita obra para quem gosta de ler ótimas Histórias em Quadrinhos, pois é isso que mangás são, apenas HQ’s e algumas delas falam sobre o mundo e nossas vidas.

Nota: 4,6 / 5

Repito, se tivesse vindo por qualquer editora de fora do mercado de mangás, Nigeru Otoko não teria nem metade das criticas que recebeu dos consumidores.

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3 comentários

  1. Ei! Eu acho que One Piece é o melhor mangá do mundo!!! Hahahahahaha!

    Brincadeiras à parte, ainda não peguei Nigeru pra ler, mas já esperava algo muito bom. Da mesma forma que Nigeru se enquadra no nicho “HQ” (que não são nem de super heróis e nem mangás), tem várias HQs que poderiam ser lançadas por uma editora que lance apenas mangás (a Conrad fazia muito isso). Atualmente, temos obras como Repeteco, Eu Mato Gigantes, Nimona, O Divino, Scott Pilgrin, até mesmo Ms Marvel e por aí vai, que poderiam tranquilamente ser lançados por uma JBC (inclusive Eu Mato Gigantes é da New Pop).

    Problema é exatamente o que você falou, o pessoal esquece de analisar a obra pelo conteúdo e passa a ver pelo rótulo. É mangá, então é de criança. É HQ, então é de super-herói e assim por diante.

    Eu, nem sempre pude comprar HQ, sempre gostei de quadrinhos, mas não comprava HQ por dois motivos: falta de dinheiro e falta de conhecimento sobre como começar a ler (principalmente porque tinha o preconceito de que HQs eram apenas aquelas de super-herói).
    No começo, confesso que estranhei o traço, o teor mais adulto das histórias. Li várias coisas das quais não entendi, aí abandonei e julguei ruim. Coisas que hoje, após reler, penso no quanto eu estava acostumado a ler histórias prontas, que não me forçavam pensar nem um pouco. Li Sandman duas vezes há uns anos atrás para poder entender e mesmo assim não entendi muita coisa, recentemente, comprei o encadernado e li uma das melhores HQs da minha vida.
    Tem que abrir a mente para coisas novas. Frank Miller, por exemplo, tem um traço grotesco, mas o cara faz cada história de cair o queixo. Mesma coisa pra Shingeki no Kyojin, o traço é deplorável, mas a história é fantástica. Novamente isso acontece em Toriko, traço horrível, história super divertida. O esquema é abrir a mente.

    Haag, leia a Gigantesca Barba do Mal, é muito bom!

      • Eu gosto de coisas diferentes, quando vi esse título bizarro, já me interessei, aí vi a galera comentando que era bom e tals e quando pude comprei.
        Tem formato de livro, parece livro, a narração tá mais pra livro ilustrado do que quadrinho, mas é bastante profundo, bastante reflexivo. Realmente muito bom! Pode comprar sem medo!

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