Review #73 – A Gigantesca Barba do Mal

Quinta-feira, 30 de Março, hoje está rolando a estreia de O Vigilante do Amanhã nos cinemas brasileiros. Eu ia aproveitar e colocar no ar a Review de The Ghost in the Shell, porém já vi uns 6 blogs fazendo a mesma coisa, então resolvi ser o diferente e postar apenas amanhã o review para que ele role o final de semana todo. Felizmente, o post de amanhã já estava bem encaminhado e precisei apenas finalizar para trocar a data.

The Gigantic Beard That Was Evil, foi publicada pelo britânico Stephen Collins em 2013 e se tornou (como a editora brasileira bem destaca) um dos best-seller do The New York Times. No Brasil, chegou pela editora Nemo no final de 2016 com o título A Gigantesca Barba do Mal e rapidamente ganhou muito destaque entre os fãs de quadrinhos.

Eu já falei de outras obras fora do mundo dos mangás, mas normalmente eram coisas da Marvel/DC ou relacionadas como Coraline, então acho que essa vai ser a primeira obra “fora da caixinha” que teremos aqui. Mas o que seria esse “fora da caixinha”? Isso é algo que podemos pensar um pouco mais das obras vindas da Europa, obras que nos fazem refletir mais sobre o mundo, mais ácidas e cotidianas, menos heroicas e engraçadas, coisas como Maus, Pílulas Azuis e Persépolis.

Claro, esse termo não é 100% preciso e nem podemos generalizar, pois eu poderia facilmente citar Nigeru Otoko como um bom exemplo dessas obras “fora da caixinha” dentro do mercado de mangás. Porém o “mais grosso” dessas obras são europeias e você consegue sentir bem essa pegada e ritmo diferenciado. No Brasil temos grandes autores que vem desenhando bem mais nessa pegada do que nos moldes norte-americanos e japoneses.

A sinopse é bem interessante:

Na ilha de Aqui, tudo é meticulosamente organizado e certinho. As ruas são asseadas, a grama é bem aparada e os homens são rigorosamente barbeados. Dave não foge à regra. Tem um emprego que lhe permite pôr em prática todo o seu senso de organização, bem como distrair a mente de pensamentos indesejáveis, e encontra paz numa rotina totalmente ordeira. Num dia fatídico, porém, Dave se vê como a raiz de um gigantesco problema: uma barba que irrompe de seus poros e desafia a lógica e a ciência. Logo ela se tornará uma questão de segurança pública e irá abalar as estruturas de Aqui, figurativa e literalmente.

Tudo em A Gigantesca Barba do Mal é feito para apontar no mesmo caminho e ao mesmo tempo para nos fazer refletir nossas vidas. A primeira coisa que logo identificamos são os nomes dos lugares: Aqui e . “Aqui” é a ilha onde a história se passa, lar de todas as pessoas de bem que vivem suas vidas corretamente, “Aqui” somos nós e nossos mundinhos fechados em nossa zona de conforto. “Lá” é o resto, é ruim e estranho, é caótico e não possui a ordem de “Aqui”, “Lá” é o resto do mundo para nós, o desconhecido que nos faz sair de casa para viver, o perigo de pisar fora de nossa zona de conforto.

E o “Lá” sempre nos atiça, sem ele nós viveríamos em cavernas ainda, seguros em nossos “Aqui”. O autor trabalha muito bem essa questão da segurança e da curiosidade/desejo, uma das minha cenas favoritas é a imagem acima, onde Dave questiona o que é que a empresa deles faz, porém ninguém sabe, cada um diz uma coisa diferente até que um pega e diz “Apenas pare de fazer perguntas“, porque perguntas são perigosas, perguntas vem de “Lá” e para poder responder nós precisamos sair do conforto e descobrir a resposta. De que importa o que a empresa faz? Eu só tenho que fazer e ninguém vai me incomodar mais.

Porém não adianta, por mais que as pessoas reprimam “Lá”, ele sempre nos pega. Sentimos falta de coisas novas, de sensações diferentes. O autor mostra isso de várias formas, desde Dave reparando na sua rotina sem graça e nas pessoas que passam na rua na mesma hora, até mesmo em seus sonhos estranhos ou na música que ele escuta em modo repetitivo (Eternal Flame do The Bangles) que diz:

“Eu acredito no que está destinado a acontecer, meu bem,
Eu te observo quando estás dormindo, seu lugar é comigo
Você sente o mesmo? Estou apenas sonhando?
Ou isso ardendo é uma chama eterna?”

Conseguem pegar a sutileza na letra da música? É “Lá” falando com Dave, é “Lá” dizendo para ele que não adianta lutar pois aquilo vai acontecer, que aquele é o verdadeiro lugar dele e ele também sabe, que ela coisa incomodando Dave lá no fundo é uma chama eterna, e que vai queimar sempre até que ele faça algo.

Quando a coisa acontece, quando a “maligna barba” começa a dominar o mundo e “Lá” finalmente chega em todos, percebemos como a perfeição de “Aqui” é frágil e que talvez o novo nem seja tão ruim. É bem interessante ver o exemplo do cara que todo dia passava pela mesma rua, mas que precisou desviar pelo parque por causa da barba, e ao fazer isso ele encontrou pessoas diferentes e um pássaro cantando. E mesmo após o mundo voltar ao normal, esse cara resolveu sempre continuar passando pelo parque.

O final da HQ nos faz pensar sobre como o desconhecido não é tão ruim, pelo contrário, ele nos torna quem somos. Como muitas vezes nos adaptamos e paramos de perguntar apenas para não ser visto como um incomodo ou alguém desnecessário, e com isso não vivemos nossa vida realmente. Será que se você não tivesse pegado outro caminho, teria encontrado a casa dos seus sonhos? Será que se você não tivesse pego outro ônibus, teria conhecido sua namorada?

O traço da obra é bem interessante também. Cenas fortes e impactantes como a anterior, onde o autor mostra o medo das pessoas com o “Lá”, vemos nessa cena uma desconstrução da pessoa, um caos completo. A composição dos quadros é bem bacana também, não segue um padrão definido, ele alterna demais entre curva, páginas inteiras e tamanhos diversos. Tem uma sequência de páginas bem bacana quando a barba surge, pois vamos vendo nos quadros a “mente” de Dave de rachando, então vemos a cabeça dele dividida entre quatro tiras na página, como se ele (ou a realidade dele) tivesse se dividido com o nascimento da barba. Em outro quadro, o autor conseguiu contar tudo que queria apenas colocando uma página de jornal, a história toda estava dentro do jornal, sem narrador. Ele consegue nos contar a história sem precisar exatamente das palavras, é possível ler a história só com as imagens.

A tradução do material está muito bom, porém acho que teve apenas um pequeno erro na escolha das palavras. Em inglês o autor faz um jogo de palavras com o nome dos lugares, Here (Aqui) e There (Lá), e o jogo consiste em mostrar que apenas um T diferencia “Here” de “There”. Em português obviamente a ideia se perde e a editora precisou manter as palavras em inglês nessa parte. Não quero ser dono da razão, mas eu teria trocado o “Lá” por “Aquilo”, assim ainda poderia ter mantido o sentido do jogo de palavras ao dizer que apenas um LO diferencia “Aqui” de “Aquilo”.

Mas ok, é só um pequeno probleminha mas também nenhum fim de mundo.

Na parte física o trabalho é muito bom, não é de hoje que a Nemo vem me chamando a atenção (junto com a Cia de Letras). A obra é em papel pólen, tem capa cartonada fosca com orelhas e um formato 17 x 24. Algo que me chamou a atenção é a transparência, vocês todos sabem que eu não ligo para isso, mas o que fez achar engraçado foi pensar no nosso mercado de mangás. Como podem notar em algumas das imagens, a transparência é bem forte em algumas cenas e mesmo assim não encontrei reclamações em sites de reviews.

Isso me faz pensar no quão chato o público de mangás é, onde qualquer coisinha já é motivo para reclamação e queima de volumes. Nos outros mercados e cenários, eu vejo o pessoal simplesmente ignorar isso. A Gigantesca Barba do Mal tem transparência? Azar, a história é incrível e é isso que realmente importa. Simples e direto.

E então, qual o veredito da obra? Eu recomendo demais, se você quer começar a se aventurar nessas obras mais “fora da caixinha” ou apenas sair um pouco dos mangás, é uma ótima opção. Um história de uma sutileza incrível, rica em detalhes e pontos para se avaliar com calma, uma leitura gostosa e sem ser cansativa. Eu já li o meu umas três vezes em duas semanas.

A Gigantesca Barba do Mal é uma excelente HQ!

Nota: 4,8 / 5

O preço de capa é de R$ 44,90 (JBC cara?), porém não é nada difícil de encontrar com um bom desconto, o meu eu comprei por R$ 22,90 e acabei de conferir na Amazon que o preço só subiu 1 real.

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3 comentários

  1. Na primeira vez que eu li, nem tinha reparado a transparência, de tão boa que é a história. Ela te instiga a querer ver “no que tudo isso vai dar”, fora que o final é espetacular! Não vou comentar para não dar spoiler.

    É realmente uma crítica ácida e ao mesmo tempo leve do nosso cotidiano, até os gráficos são enviados por e-mail sempre no mesmo horário e são sempre iguais (só percebi isso depois). Ao mesmo tempo que é ácida em te esfregar na cara, é sutil, como na letra da música e nos gráficos.
    Cara, minha cabeça explodiu quando li isso. Já li 3 vezes também. Boa demais!

    Recentemente a obra que explodiu minha cabeça foi Eu Mato Gigantes, pois embora seja mais próxima do nosso mundo de mangás e HQs de super heróis, traz uma mensagem realmente profunda, que te faz voltar as páginas da HQ pra entender coisas que você não tinha entendido antes. Tipo: Ah, por isso…

    Ps: Os quadrinhos da Nemo, Veneta, Mythos e Mino são sempre muito caros, só dá pra comprar por promoção. Mas geralmente tem muita coisa boa.
    JBC cara? Mythos colocou A Liga Extraordinária por R$ 150,00!!

    • Ah, mas aquele Liga Extraordinária vale. Até páginas em 3D ela tem, é realmente algo de outro mundo. E ele não é da Devir?

      Cara, a sacada da música foi genial, eu já curtia The Bangles (foi a melhor coisa do anime de Stardust Crusaders) e quando vi a música na história, corri pro celular pra escutar ela. Putz, a letra encaixa muito bem no que a história conta.

      A Amazon tem por R$ 39,90 o Eu Mato Gigantes, vou deixar na lista de desejos e cuidar alguma promoção. Ela sempre me chamou atenção, acho a capa bem bonita (embora a americana é mais chamativa).

      • A Liga é da Devir mesmo! kkkk! É outra que enfia a faca de vez em quando! Hahaha! Acabei confundindo com Hellboy Gigante que é da Mythos.

        Fica de olho mesmo porque eu peguei mês passado por R$ 21,90 e, uma das coisas que me chamou a atenção, foi a capa, mas concordo que a capa americana é bem melhor!

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