Review #78 – Usagi Drop

“Você não acha que esse mundo é melhor do que você esperava?

Quinta-feira chegando e com ela mais um post de obra da NewPOP, o que me deixa muito feliz. Além da editora estar direto em nossos NdM, já é a terceira resenha em menos de duas semanas, mostrando que aos poucos a editora vai realmente se arrumando e publicando suas obras com uma boa periodicidade. Fico realmente muito feliz, espero poder fazer cada vez mais resenhas de materiais da editora. O mangá de hoje é provavelmente um dos mais “polêmicos” no nosso mercado nos últimos tempo, mas será que tanta polêmica não é injusto?

Usagi Drop é uma obra de Unita Yumi e foi publicado na revista Feel Young entre 2005 e 2011, sendo finalizado com 9 volumes de história e mais 1 de especiais. O mangá já recebeu tanto adaptação para animê quanto para live-action (ambos em 2011). No Brasil, o mangá chegou pela NewPOP em 2014 e foi finalizado agora em abril com o lançamento do volume 10.

O mangá conta a vida de Daikichi, um solteiro de 30 anos que descobre no funeral de seu avô que ele tem uma “tia bastarda”, uma garotinha de 6 anos chamada Rin. Após uma briga entre seus familiares, onde até mesmo sugerem levar a garota para um orfanato, Daikichi decide assumir a guarda de Rin e todas as responsabilidades que vem com essa decisão.

Antes de mais nada, esse vai ser um post com grandes spoilers, pois vai ser impossível comentar o que causou tanta polêmica e minha opinião final sem entrar no spoiler mais pesado da obra, e sinceramente, duvido que qualquer um de vocês ainda não saiba dele.

A obra pode ser dividida em duas, até o 4 volume temos a parte da infância de Rin, e do 5 até o 9 já vemos a fase adolescente dela.

Eu comentei no CoV do volume 4 (link aqui) que Usagi Drop era uma obra que nos “vencia por pontos” ao invés de por nocaute. Ao longo dos volumes nós vamos vendo vários momentos da vidas deles, em cada historinha temos uma mensagem sutil ali, um pensamento dito por uma criança, uma reflexão feita por um adulto. São “gotas de água”, mas que a cada gota vão enchendo o copo com uma riqueza incrível. Usagi Drop mostra que a mensagem não precisa ser aquele direto no queixo como em Koe no Katachi, ela pode ser sutil e aos poucos, nos fazendo refletir melhor sobre o que estamos lendo.

Porém eu senti que essas questões mais reflexivas ficaram muito mais na primeira fase, até o quarto volume. Do quinto em diante eu senti que ele deixou de ser um mangá mais reflexivo para virar “apenas mais um” mangá de romance. Não que isso seja ruim, mas eu senti que perdeu muito do que tinha me cativado. Até temos alguns momentos mais esporádicos, como quando a Rin procura pela mãe e descobre que ela está grávida, isso trás aquela reflexão da garota ver a mãe que lhe abandonou tendo um novo bebê e todo o arrependimento que mulher carrega.

Porém no geral essa segunda fase foi bem menos reflexiva do que a primeira, e para mim é esse o maior defeito do final da obra. Chegamos agora no grande spoiler, vou colocar uma linha aqui, mas grande parte de todo o desenvolvimento do post vai estar dentro dele, se quiserem mesmo assim pular para a próxima, vai ser já na conclusão do post.


Pois bem, como muitos já devem saber por conta de todas as polêmicas que vimos no Facebook, no final do mangá a Rin decide se casar com o Daikichi. Se descobre no nono volume da obra que a Rin não é filha do avô de Daikichi como todos achavam, e ao descobrir isso a garota resolve assumir os sentimentos que vinha nutrindo em segredo.

Muita gente prontamente falou “Ah que final lixo” e coisas do gênero. Vou ser sincero, eu não gostei da forma que a obra terminou, mas isso não se deve exatamente pelo fato dos dois terem se casado, mas sim porque eu não senti que aquilo foi trabalhado de forma decente. Me pareceu corrido demais, principalmente por parte do Daikichi.

Claro, vemos ao longo dos volumes Rin viver uma “batalha interna” sobre o que estava sentido, da parte dela nós até vimos uma evolução e um certo trabalho. Desde o começo do mangá nós vemos que a Rin nunca enxergou ele como um pai, isso fica bem claro nas cenas em que ela briga com as pessoas dizendo “Ele não é meu pai, ele é o Daikichi”, ao mesmo tempo não podemos também dizer que ela se apaixonou pelo Daikichi, está mais para algo do tipo “ele sempre me cuidou e agora é minha vez de cuidar dele”. Embora tenha ficado um pouco confuso, a obra ainda trabalhou um pouco na Rin.

O problema está quando ela se revela para Daikichi e em apenas um capítulo vemos ele se decidir em aceitar ela como esposa. Me pareceu corrido, pareceu estranho. Eu senti que aquela reflexão ficou vazia e sem solução, em uma obra onde tudo trazia reflexões sobre a sociedade, logo o maior (e mais polêmico) ponto da obra ficou sem ser debatido de modo correto para mim.

Quais as consequências da escolha deles? Como os pais do Daikichi reagiram? Como uma sociedade, que já julgava ele por ter adotado uma criança do nada, enxergou essa mudança de status deles?

Veio então o décimo volume. Quando vi que ele reuniria várias histórias curtas, imaginei que seria uma forma da autora “tapar” os furos e trabalhar melhor a conclusão da obra e o fato de Rin e Daikichi se casarem. Mas foi muito pelo contrário, eu senti que esse décimo volume até tornou a conclusão “menos aceitável”, em uma das histórias ele até mesmo mostra como teria sido a família caso Daikichi tivesse se casado com a mãe do Kouki. No único capítulo em que mostra o “pós-decisão”, o assunto de como as pessoas reagiram nem mesmo é abordado.

Sinceramente, o meu grande problema com Usagi Drop não é o fato de a Rin ter se casado com o Daikichi, e sim o fato de que aquilo ficou mal feito para mim. Poderia ter sido feito de uma forma em que mesmo com o público não concordando, ainda assim acrescentaria alguma forma de debate, de como enxergar o mundo. Do jeito que ficou, para mim foi algo apenas “ok, quero finalizar assim e assim vai ser”.

As pessoas tem que entender que ele não é ruim porque os dois ficaram juntos, isso não quer dizer nada. O final só é ruim porque não foi bem trabalhado, ficou vago e corrido, a explicação poderia ter sido bem melhor.


Usagi Drop no fim se mostrou uma coleção que é possível fazer ela de 3 formas: a primeira é comprando todos os 10 volumes, mas não considero a melhor. Depois temos a opção de ignorar o volume extra, pegando até o 9 e aceitando a decisão da autora. Pra mim, a melhor opção é a última, comprando apenas do 1 ao 4 e pegando toda a fase infantil da Rin.

É ali que está o melhor do debate da obra, sobre criação, sobre as dificuldades de se pai ou mãe solteiros, a forma como a sociedade julga as pessoas e se preocupa tanto com as aparências.

Claro, dizer que do 1 ao 4 é a melhor fase não significa exatamente dizer que todo o resto não vale a pena, significa apenas que ali está o melhor do mangá. O melhor de Dragon Ball está na saga do Freeza, mas não que dizer que o Cell seja ruim.

Independente da forma que vocês pegarem, vale a pena dar uma olhada em Usagi Drop. A encadernação da NewPOP está muito boa (embora com vários erros de português, principalmente no 10) e a história diverte.

Nota: 4 / 5

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3 comentários

  1. Da NewPop só tenho a coleção de Red Garden, o traço é belíssimo, só tive problema com a cola da lombada, já que as tiras de páginas estavam saltando pra fora, só o que segura é a costura. Desde que foi publicado aqui, na banca perto da escola onde estudo tem dois volumes 1 (um aberto, outro fechado), assim como um volume de Freezing e alguns de Black Butler.

  2. Haag, primeiramente te parabenizo pelo review e por fazer uma análise da obra de maneira imparcial e não uma imposição de opiniões pessoais.

    Particularmente eu concordo com seu ponto de vista no sentido de que a primeira parte do mangá é a melhor. Eu gostaria que a autora tivesse seguido a história com a Rin criança e ao invés de um salto de 10 anos, fosse apenas 3 ou 5 anos. Seria muito legal ver a Rin um pouquinho crescida com 10 ou 12 anos e como estaria a vida dela com o Daikichi. Depois ela poderia ter dado outro salto e abordado a fase adolescente. Na segunda parte a personagem teve uma mudança bem grande e eu não consegui ter a mesma afinidade com aquela criança do início do mangá e isso começou a me afastar um pouco da obra, mesmo assim fui persistente e li por completo.

    Sobre o final, eu não gostei exatamente por ter sido muito apressado e sem um desenvolvimento decente. Dá a impressão que a editora cancelou o título e deu um ou outro capítulo pra autora terminar tudo (ou então ela conheceu um tal de Togashi e ligou o “dane-se”). Sobre as escolhas dos personagens no final do mangá eu não concordei mas não me senti chocado ou qlq outro adjetivo nesse sentido. Tecnicamente não havia impedimentos para os dois.

    Eu li o mangá todo online, ainda antes de o nono volume sair e por isso não levei spoilers, ufa rsrsrs. Pretendo comprar os 4 primeiros volumes já a bastante tempo, só estou esperando a oportunidade certa, pois sempre que tem uma promoção de Usagi na Amazon tbm tem de outros títulos e acabo deixando ele mofando na minha lista de desejos e o frete da New Pop não é convidativo para mim.

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