Review #80 – Eu Mato Gigantes

Eu achei que já tinha lido o suficiente para não ser mais nocauteado por uma obra, mas descobri que não importa o quão experiente você seja, sempre têm como algo te derrubar. Hoje é quarta e os gigantes estão vindo.

I Kill Giants, é um mangá americano escrito por Joe Kelly e desenhado por JM Ken Niimura, e foi originalmente publicada ente 2008 e 2009 com um total de 7 volumes lançados. Entre os muitos prêmios que recebeu, foi um dos vencedores do International Manga Award. Em 2012 foi anunciada uma adaptação cinematográfica prevista para 2018.

Em 2013, a obra foi publicada pela NewPOP numa edição única que além de compilar os 7 volumes, ainda reuniu alguns extras.

“Eu Mato Gigantes é uma história sobre Bárbara, uma garota um pouco excluída, ela vive totalmente imersa em seu mundo de “Dungeons & Dragons” e não tem muitos amigos. Mas, ao se deparar com uma dura realidade, acaba se perdendo em seu mundo de fantasia, tudo que ela conversa com as pessoas é sobre gigantes. Ela se convence que gigantes são reais e que sua vinda é iminente. Também acredita que é sua responsabilidade matá-los, afinal ela é a matadora de gigantes. Dia após dia, Bárbara faz todas as preparações necessárias para o grande combate, enquanto as pessoas a sua volta tentam ajudá-la a superar suas fantasias e lidar com a dura realidade.”

Admito que a obra estava na lista de desejos a muito tempo, muito realmente. Mesmo querendo e vendo boas promoções aparecendo, ainda assim eu sempre deixava para depois. Ai mês passado o Mugi (ainda vou fazer uma prateleira com as recomendações dele) me disse que eu era obrigado a comprar essa obra. Como ele é possivelmente quem tem o gosto mais parecido comigo, confiei e comprei.

Bom, eu estou chorando até agora.

Eu sempre via a obra com olhos errados. Me parecia uma história sobre uma garota diferente dos padrões e excluída, mais uma daquelas muitas histórias sobre o “diferente” e como devemos aceitar as pessoas como elas são. Talvez no máximo eu esperasse por algum debate mais forte sobre bullying e alguém precisando criar um mundo para fugir disso.

Até temos tudo isso, mas tem algo muito mais fundo por trás e é justamente essa coisa ao fundo o grande peso de Eu Mato Gigantes e que realmente nos acerta de modo mais forte. Não vou revelar o que é, pois esse seria o grande spoiler da obra, porém vou tentar dar uma comentada ao redor do assunto.

Desde o começo percebemos que Bárbara é mais do que apenas uma garota isolada e perdida em um mundo de faz de conta, isso fica bem nítido desde o começo com algumas “mensagens escondidas” de forma não tão sutil, como o fato dela ser cuidada pela irmã, o fato de nunca subir ao segundo andar da casa e até mesmo como alguns assuntos ela simplesmente ignora. Essa parte dos assuntos ignorados é bem interessante, pois o autor deixa bem claro que ela não quer tocar nesse assunto ao simplesmente riscar todos os balões das falas. E tudo isso vai atiçando a curiosidade do leitor sobre qual é o grande motivo de todo aquele universo de Bárbara.

Ao longo da trama algumas pessoas vão quebrando o muro que ela construiu, primeiro aparece a psicóloga da escola que tenta ajudar Bárbara a superar o grande problema de sua família. Logo depois é a vez de Sofia, a primeira pessoa que aparece como uma amiga de verdade para ela. Novamente o autor consegue trabalhar muito bem as questões da reclusão de Bárbara, a gente percebe que ela quer se abrir para as pessoas, mas ao mesmo tempo tem medo de criar novos laços.  Ela gosta de estar com a psicóloga, mas ao mesmo tempo tenta manter uma distância “segura”, o mais interessante é que segundo ela essa segurança é mais para os outros do que para ela, pois ela é a Matadora de Gigantes e não pode salvar todo mundo. E nisso só vamos percebendo que algo ali não está nada bem.

Tudo é enfim revelado de uma forma magistral, temos uma incrível batalha de Bárbara contra o seu Titã, e seu grande inimigo. Achei brilhante a forma como o autor fez para que aquela batalha da garota com o gigante fizesse sentido, em determinado momento eu me peguei pensando se tudo sobre os gigantes não era verdade, pois ele fez aquilo tão incrível que eu já não conseguia mais diferenciar o sonho dela da verdade.

A conclusão é ainda mais forte, o mangá nos trás um final feliz e uma conclusão filosófica, porém o sentimento de dor e tristeza vem junto disso tudo. Nosso sentimento ao final da história é bem misturado, ficamos impactados com tudo que vimos. Como eu disse no começo, não esperava o baque que recebi.

A narrativa é muito boa, ela começa bem bagunçada e difícil de entender, muita coisa não fazendo o menor sentido. Aos poucos tudo vai se explicando e fluindo de uma maneira incrível. Já na arte eu confesso que até pouco tempo atrás eu mantinha uma distância desse tipo de traço mais solto, mais ao lado europeu. Recentemente tenho curtido cada vez mais essa arte e em Eu Mato Gigantes achei que ela casou muito bem, ótimas cenas e quadros muito bem feitos. As cenas da batalha contra o titã são as melhores.

O trabalho da NewPOP é algo para se comentar também. Eu torcia o nariz para o salgado preço de R$ 39,90, embora ainda torça um pouco, compreendi ele melhor ao ver o mangá. Ele tem o tamanho 26×17 e todo em papel couché, o que justifica de certo modo o alto preço. Entretanto é impossível não sentir pesado ao ver a HQ com apenas 208 páginas e por esse motivo não recomendo como uma obra que se compre no preço de capa. Porém com as muitas promoções que vemos na Amazon, pagar R$ 21,00 como eu paguei é algo bem mais razoável e que compensa.

Um porém que eu faria foi na escolha da capa. A editora utilizou a capa da edição 1 americana, porém como essa é a edição em volume único, eu acho que poderia ter sido escolhida outra. A minha favorita é a americana escolhida para a versão definitiva da obra lá, acho que é uma capa mais chamativa e impactante, do tipo que me faz pegar na loja e pensar “hum, isso parece interessante”.

Como puderam notar, é uma obra que eu realmente recomendo a aquisição. Para quem quer ler uma ótima história ou para quem gosta de comprar coisas diferentes, Eu Mato Gigantes é uma excelente pedida.

Nota: 5 / 5

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7 comentários

  1. A nota não tinha como ser outra! Esse mangá/hq é simplesmente soberbo! Muito bom! Fiquei dias pensando em quando ia ler algo tão bom quanto isso, e sinceramente, até agora não li nada que me arrebatou como Eu Mato Gigantes.

    Você sente uma empatia pela Bárbara e meio que agradece por não estar “na pele” dela. Sem palavras!

    Quanto à capa, sem dúvida essa da edição unica é mais chamativa e diria até mais impactante.

    Um quadrinho que li esse ano e que vai ser difícil de superar!!

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