Review #85 – Maus

“Você só pode saber para onde está indo, depois de saber de onde veio.”

Começamos mais uma semana, e dessa vez vai ser uma especial. Se tudo der exatamente como planejo, teremos 5 resenhas de obras até a sexta-feira, somente com obras “filés”. Para começar essa maratona de títulos com o pé direito

Maus é uma obra do sueco Art Spiegelman e foi publicada nos EUA entre 1986 e 1991, com um total de dois volumes: “Meu Pai Sangra Histórias” e “E Aqui Meus Problemas Começaram”. No Brasil a obra já tinha tido seus dois volumes publicados, o primeiro em 1987 e o segundo em 1995, ambos pela editora Brasiliense.

Em 2005 a obra voltou para nossas livrarias, dessa vez com Companhia das Letras que começava o seu selo “Quadrinhos na Cia”. Dessa vez a obra foi publicada em uma edição única e é dessa edição que vamos falar hoje.

A obra é uma biografia do próprio pai do autor, Vladek Spiegelman, um judeu que durante a 2ª Guerra Mundial perdeu todos os parentes e precisou fugir com a esposa, mas que no fim acabou sendo enviado para Auschwitz.

Entre os diversos prêmios que a obra recebeu, o mais importante é com certeza o Pulitzer, premiação máxima do jornalismo e da literatura.

Bom, como descrever Maus? É bem difícil pensar em como eu deveria começar esse post. Acontece que em meio a minha meta de assistir duzentos filmes no ano, ontem assisti Hitch e em determinado momento o personagem do Will Smith diz a frase que coloquei no começo do texto.

Mas qual a relação de uma frase dita numa comédia romântica com uma HQ baseada em fatos reais sobre o holocausto?

É que Maus é muito mais do que apenas um quadrinho sobre a segunda guerra, nazismo e holocausto. Maus é sobre as pessoas, mais até do que pessoas, é sobre família e de onde viemos. É sobre um filho conhecendo seu pai.

Em determinado momento o autor comenta que tem medo em criar mais uma obra em meio a tantas sobre o holocausto que existem. Porém ele consegue fugir disso ao apenas narrar a historia do seu pai.

Mas não se enganem ao pensar que ele possa ter “enfeitado” a história tentando tornar o pai vítima. Longe disso, ele narra tudo de forma direta e muitas vezes deixando bem claro que a relação deles não era nada boa, como nos momentos em que mostra o pai como um grande sovina ou alguém racista e preconceituoso, mesmo sem entender como alguém que passou pelo holocausto pode nutrir algum tipo de preconceito com outras pessoas.

É interessante ver a forma que Spiegelman utilizou para contar Maus e até é o grande motivo pelo qual ela é uma história sobre pai e filho. A narrativa não é do autor, não é ele narrando o que escutou do pai. A história nos é contada pelo pai dele, na verdade o autor nos apresenta o exato momento em que as escutou, tanto que os capítulos começam com ele chegando na casa do pai para escutar o resto da história e colocar em seu livro.

Então o que vemos é um momento exatamente de “pai e filho”, com Art chegando na casa do pai para continuar a entrevista, mas que sempre tem alguma coisa mais cotidiana como limpar a calha ou fazer um café no meio. E é nesses momentos em que ele apresenta não apenas suas rixas com o pai, como também todos os defeitos do velho.

Ao final o autor até deixa meio que a impressão de que entendeu um pouco todos os defeitos do velho após escutar toda a história, mas ao mesmo tempo mostra como eram contraditórias algumas atitudes do pai, como se o velho não tivesse aprendido nada com o que passou.

A história é bem pesada, quem aqui já assistiu ao fantástico “La Vita È Bella” deve saber mais ou menos o peso que Maus carrega (me falaram em O Menino de Pijama Listrado, mas esse não vi). Não é bonita, não é divertida, mas é extremamente obrigatória a leitura, até iria mais longe e diria que Maus deveria ser trabalhado nas escolas para que o pessoal veja realmente o que era a 2ªGM e o nazismo. É bem difícil tentarmos imaginar aquilo vivem nessa nossa época de paz, então é somente com os relatos de quem viveu que podemos aprender.

Bom, uma das coisas que mais chama a atenção de todos em Maus é sua arte. Como todos devem saber de outros textos e comentários que já devem ter lido pela internet, o autor utilizou animais para caracterizar as pessoas.

Os judeus são ratos (a palavra Maus significa exatamente Ratos em alemão), os nazistas são gatos, poloneses são porcos e americanos são cachorros. Inicialmente a primeira interpretação que se faria é de que o autor tentou “diminuir” o peso da obra ao não mostras as pessoas diretamente.

Entretanto esses dias eu li uma analise mais interessante em que a grande sacada de se colocar animas é justamente mostrar como as atitudes nazistas não tinham nada de humanas, foram animosidades, impossíveis de mostrar como praticadas por algum ser-humano.

Honestamente, não sei qual das duas é a verdadeira intenção do autor (ou nenhuma delas talvez), porém são reflexões válidas na história. Sem contar claro que essa arte ficou como uma marca registrada de Maus.

Essa edição da Companhia das Letras é uma espécie de “edição definitiva”, pois ela reúne em apenas um volume as duas partes que formam Maus. Ao todo essa HQ possui aproximadamente 300 paginas, é toda em offset e com verniz na capa. É uma qualidade impecável que da gosto de ter.

O preço de capa é um tanto pesado, mas não necessariamente caro: R$ 59,90. Mas nós vivemos em um momento em que raramente pagamos o preço de capa, isso torna fácil encontrar Maus por no máximo R$ 35,00, mas com calma é bem comum achar até por R$ 20, pois volta e meia a obra está nas promoções da Amazon.

Eu recomendo demais, como disse, obra obrigatória para quem quer aprender mais sobre um dos momentos mais lamentáveis da historia da humanidade. Ou também para quem quer apenas ler uma obra prima.

Nota: 4,9 / 5

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7 comentários

  1. Maus é sensacional! Acho que o que eu mais gostei na obra é justamente o que você disse, como a história é contada, de pai para filho e ainda, vez ou outra sendo interrompida por pequenas discussões entre os dois, que servem até mesmo como um alívio cômico para todo o peso da história.

    Aproveito pra destacar mais um ponto da qualidade da obra que é a tradução. O sotaque que eles “traduziram”, ao meu ver ficou perfeito, poderia, se não houvesse um cuidado maior, ter ficado chato, exagerado ou até desnecessário e poderia ter se tornado um ponto negativo, porém isso não acontece! E a qualidade de sempre da Quadrinhos na Cia, a mesma qualidade de Pílulas Azuis e Repeteco, papel firme, bem branquinho (imagine se as páginas de Maus tivessem transparência, a bagunça que ia ficar?), enfim, muito bom em diferentes aspectos, recomendadíssimo.

    Aproveitando pra deixar a recomendação de Repeteco, mesmo autor de Scott Pilgrin, história bem leve e divertida!

    • É verdade, esqueci de comentar o sotaque que eles deram para o Vladek. Um bom trabalho de tradução e adaptação realmente.

      Esses dias eu notei que essas obras tem me conquistado cada vez mais do que os mangás nos últimos tempos.

      Minha lista cresce cada vez mais, as próximas são Repeteco, Scott e Retalhos. A Nemo e a Cia não estão me decepcionando em nada.

      • Eu tenho acompanhado muitas obras do tipo também! Tem muitas na minha lista. Retalhos, O Árabe do Futuro, Uma Vida Chinesa, Placas Tectônicas, O Muro, Habbib, Aãma, O Escultor e por aí vai…

        Companhia das letras também é muito boa. Eu curto bastante os nacionais, aliás tenho uma lista só deles, Desengano, Open Bar, Sopa de Salsicha, enfim, tem coisa pacas pra comprar ainda! kkkkk

        Tem um selo da Panini que se chama Stout Club, vira e mexe tem uns títulos bacanas saindo.

        Outra editora que faz muita coisa bacana é a Image, quase tudo que eu pego dela (que chega aqui por diferentes editoras) é bom! Saga, Paper Girls, Rat Queens, The Wicked+The Divine, Projeto Manhattan, Monstress, East of West, Outkast, muita coisa boa mesmo!

        Ah! Mais uma dica! Fica de olho em uma série chamada Scalpo, que vai começar a sair pela Panini, selo Vertigo, vai vir em capa dura, padrão luxo, se não me engano em 5 volumes, é animal! Depois procura dar uma lida em algum lugar pra ver se gosta, mas já te adianto, vai sumir rapidinho!

        Resumindo, vamos falir! kkkkkk

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