Review #103 – O Homem Que Passeia

Bom dia nessa quinta-feira maravilhosa, hoje estamos chegando com mais uma Review e dessa vez para falar do primeiro mangá da Devir.

Perai Haag seu mentiroso, onde está o post de One Piece?” Então, Enies Lobby era para ter ido ao ar ontem, só que na hora de revisar o post eu admito que não gostei dele e resolvi reescrever inteiro. Estava muito leviano para um arco tão importante na história, por isso vou trazer ele na próxima quarta.

Agora, vamos voltar para o tema de hoje.

Aruku Hito, obra de Jiro Taniguchi que foi publicada originalmente entre 1990 e 1991 nas páginas da Morning Party Zoukan com um total de 18 capítulos curtos, compilados num único volume. A obra já havia sido publicada anteriormente em outros países como Portugal e EUA, até que em 2017 todos fomos surpreendidos com o anúncio de que a Devir iria lançar ele no Brasil, iniciando assim sua publicação de mangás no país.

O Homem Que Passeia (nome brasileiro) é o primeiro título do selo Tsuru, uma coleção onde a Devir planeja publicar obras de autores japoneses renomados no mundo inteiro mas que não tenham todo esse reconhecimento no Brasil. O que eu considero uma proposta muito interessante, não planejo comprar toda a Tsuru, porém alguns títulos podem ser bem interessante.

Vocês já me conhecem bem, sabem que não sou do tipo que exalta autor ou obra só para parecer “entendedor” ou “cult”. Não tenho vergonha nenhuma em admitir que eu não fazia ideia de quem era Jiro Taniguchi ou mesmo Shigeru Mizuki (próximo autor do selo), imagina então as obras deles. Por esse motivo eu nem mesmo planejava pegar O Homem Que Passeia, felizmente ganhei de amigo secreto e encontrei algo muito interessante.

De largada já vou deixar uma coisa bem clara: não é uma obra para maioria das pessoas.

O título da obra é a melhor sinopse possível para explicar o que é o mangá. O Homem Que Passeia é a história de um homem que passeia, ponto.

O fato é que a obra é realmente apenas a história de um personagem que caminha pelas ruas de sua cidade, só que esse “apenas” não é tão “apenas” assim, ele é mais delicado em mostrar essa simples caminhada e nos faz refletir sobre o que fazemos com nossas vidas. Não vou entrar naquele papo super filosófico de como levamos nossas vidas, mas a ideia que o mangá nos traz é justamente de refletir sobre isso.

O personagem (que nós nem mesmo sabemos o nome) e sua esposa acabaram de se mudar para o bairro, a história nos mostra a simplicidade de apenas descobrir o mundo a sua volta. Descobrir uma rua nova, descobrir uma trilha escondida que leva ao topo de um monte ou uma linda cerejeira que floresce e cobre a rua inteira com um tapete rosa.

A obra nos faz pensar sobre essas coisas tão pequenas e que ao mesmo tempo passam uma tranquilidade imensa. Aquela tranquilidade de simplesmente parar a noite para olhar as estrelas ou enxergar toda a cidade do topo de um morro ou árvore. A tranquilidade de escolher um filme para assistir com quem você ama, descobrir um novo caminho para casa, levar o cachorro para passear ou ver o mundo após um pesado temporal.

Recentemente eu li uma HQ chamada Aqui (em breve vou resenhar) e que também carrega uma ideia bem forte sobre essa questão de refletir sobre o mundo em nossa volta. Ambos meio que se complementam, enquanto Aqui nos mostra o mundo “vivendo” ao redor das pessoas, O Homem Que Passeia mostra o ponto das pessoas vivendo nesse mundo.

Tudo isso é lindo e maravilhoso, porém agora entra o que eu lhes falei antes sobre essa não ser uma obra para maioria das pessoas.

Lembram quando tivemos todo aquele debate no começo de Blame! sobre a obra quase não ter diálogos? Então, em O Homem Que Passeia eles são ainda mais raros, e de certo modo isso se agrava ainda mais por não ser uma obra de ação com super batalhas que enchem os olhos do leitor. Repito, é apenas um homem caminhando em sua cidade.

Isso com certeza vai fazer muita gente se entediar com a obra e cansar dela, pois isso faz o leitor ter que prestar ainda mais atenção nos quadros e passagens, porém sem que esses momentos mostrem tanto quando em Blame!. Alguns quadros apenas mostram algumas crianças brincando ou apenas uma parede, cabendo ao leitor interpretar algo dessas cenas, interpretações essas que nem sempre significam a mesma coisas para todos.

E é justamente por causa dessas diversas formas de interpretações que eu não acho que o mangá seja uma opção para todos, nem só para todos, para a grande maioria dos leitores do nosso mercado de mangás.

Bom, falando agora do trabalho da Devir em O Homem Que Passeia eu acho que preciso começar lembrando que ele faz parte da coleção Tsuru. Como comentei, o selo vai ser voltado para trazer autores renomados e obras diferenciadas do nosso padrão de publicação.

Traduzindo isso para um modo mais simples: essa é uma coleção especial ao máximo.

Assim como os seus títulos, a qualidade física desse selo não é algo para ser simplesmente publicado na banca em um papel jornal ou offset simples. A coleção Tsuru é algo mais voltado ao grande colecionador, para quem está mais interessado em coisas diferenciadas sem precisar se importar com preços. Ou como eu sempre digo, não é para quem só quer ler seu Naruto do mês e acabou.

A Devir fez o mangá em papel Murken, de cabeça eu não me lembro de nenhuma outra obra que use esse papel, mas de modo curto ele lembra muito o Lux Cream de Akira. A obra não possui páginas coloridas, mas recebeu uma sobrecapa fosca. A encadernação está muito boa, fácil de folhear sem ameaçar soltar.

Na questão de revisão também é um trabalho muito bom, só encontrei um único erro de português. Em compensação algo me chamou a atenção na questão de adaptação das palavras japonesas, pois em alguns casos como placas de lojas e nomes de livros a editora modificou para a leitura em português, mas logo em seguida víamos casos iguais de placas e livros mantidos em kanji. A Devir não manteve uma coerência nessa parte da adaptação.

E como eu sempre digo, quando esse tipo de coisa se torna “o principal problema” é porque o trabalho está bom.

Entretanto, mesmo eu tendo gostado muito da obra e do trabalho da Devir, ainda assim continuo sem recomendar o mangá. Como disse antes, esse tipo de obra só serve para colecionadores mais “hardcore”, que busca mais de suas leituras e dos títulos que compra. O preço de capa é de R$ 55,00, mas normalmente tem girado entre R$ 42 na Amazon, um preço bem elevado para quem não tiver total certeza da compra.

Nota: 3,8 / 5

Esse selo Tsuru pode ser algo bem interessante, mas não acredito que será algo tão obrigatório assim. Ao manos O Homem Que Passeia foi um bom começo.

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2 comentários

  1. Há algum tempo atrás, eu estava vendo um vídeo no Youtube em um desses canais que falam sobre cinema (sim, adoro cinema, sou extremamente cinéfilo 😛 ) que “explicava” um dos fatores que faz com que os filmes do estúdio Ghibli façam tanto sucesso. O vídeo falava que o principal motivo era a beleza dos filmes e dos cenários e essa beleza só era percebida pelo expectador porque os filmes constantemente usam de um recurso chamado de “movimento gratuito”, que nada mais é do que aqueles momentos em que nada acontece. Onde algum personagem apenas senta e respira, ou mesmo aquela cena do ponto de ônibus em Totoro, ou quando a Chihiro pega o trem com o Sem Rosto, ou ainda a Porco Rosso voando em seu avião. Nesses momentos, nada acontece.

    Em uma entrevista à um crítico de cinema, o mestre Hayao Miyazaki diz que existe uma palavra no Japão, que expressa essa sensação e que esse recurso tem um porquê de estar ali. A palavra é: “Ma” e significa literalmente “Vazio”. O Ma está ali
    para que o expectador perceba a ausência de algo e que permita que essa ausência seja preenchida com outra coisa, que geralmente é a sua percepção de algum aspecto daquilo que você está vendo, ou a beleza, ou a simplicidade, coisas assim (não sei explicar direito).

    Desculpe o textão, mas é que pelo review, eu não consegui imaginar uma outra analogia que se enquadre melhor, talvez o autor Jiro Taniguchi até esteja mesmo utilizando o conceito de Ma, para que possamos perceber um algo a mais em sua obra. Uma verdadeira contemplação.

    E como você falou, existem pessoas que gostam de contemplar e outras que não gostam, por isso, realmente esse mangá não é para todos. Eu, particularmente adoro e sei que essa é uma obra que não posso deixar de ter.

    Agora, pense no quanto o cara tem que ser bom pra passar essa sensação de “contemplação” através de desenhos!!

    • Eu penso a mesma coisa, respeito demais um autor que consegue contar sua história sem precisar escrever ela com palavras, sem ter que aparecer algum personagem dizendo que é para entender de forma X.

      Blame! mais para o começo era bem assim, O Homem Que Passeia também. Você tem que prestar atenção em cada detalhe, você vê a arte com mais cuidado e percebe como é bem feita.

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