Review #119 – Your Lie in April

Chegou a hora meus amigos, quase 2 anos após o primeiro CoV vamos finalmente fazer o Review do meu querido Your Lie in April.

Shigatsu Wa Kimi no Uso, obra de Naoshi Arakawa e que foi publicada nas páginas da Monthly Shonen Magazine (a mesma de Noragami) de 2011 até 2015, com 44 capítulos compilados em 11 volumes. Em 2014/15 a obra ganhou uma maravilhosa adaptação em anime, que reuniu toda a história em 22 episódios e fez muito marmanjo (como esse que lhes fala) chorar feito uma criança.

A obra demorou demais para desembarcar no Brasil, talvez por conta da revista não ser muito procurada pelas editoras mesmo sendo da Kodansha, o fato é que a obra só chegou aqui em 2017 pela Panini com seu título internacional de Your Lie In April.

Seguindo a sinopse da Panini: “Kousei Arima é um pianista prodígio que, devido aos duros treinos impostos pela sua mãe e instrutora, fica traumatizado e se torna incapaz de tocar piano após o falecimento dela. Amargurado, o garoto mantém distância da música mesmo depois de anos, ignorando até mesmo o incentivo de seus amigos. Até que um dia ele conhece Kaori, uma violinista animada e cheia de personalidade, em um encontro que mudará sua vida.

Bom, eu falar para vocês que YourLie é o meu grande favorito seria chover no molhado, esse blog tem quase 4 anos e eu acho que já repeti isso diversas vezes.

Como eu comentei no CoV do primeiro volume, e agora vou repetir para os novos leitores, muita gente comete o erro de analisar ou falar de Shigatsu como um mangá sobre música. Na verdade a música é o mais irrelevante da obra na minha opinião, ela serve apenas para a ligação entre os dois protagonistas centrais. O Arima é um pianista filho de uma ex-pianista e isso é tão relevante quanto seria se ele fosse um jogador de futebol filho de um ex-atleta. A questão da musicalidade da obra serve apenas como o pano de fundo.

Esse título na verdade é para nos fazer enfrentar nossas mentiras, por isso o nome é “Your Lie”, ou seja, “Sua Mentira”.

Tá Haag, mas que mentiras?” Obviamente a obra tem a sua grande mentira de abril, a mentira que dá o título da obra e que irei comentar na área de spoilers. Porém ela não é a única mentira que é contada ao longo da obra.

Esse é o ponto, a obra nos mostra que todos temos as pequenas mentiras que na maioria das vezes são feitas para enganar a nós mesmos e não os outros.

Essas mentiras são pequenas, seja a paixão pelo melhor amigo(a) que não queremos admitir quando na verdade todos já sabem, seja o medo de não atingirmos as expectativas que nossos pais tem por nós ou aquela rivalidade que não admitimos que na verdade é admiração. São mentiras pequenas, mas que todos já contaram ao menos uma vez em suas vidas.

Algo que temos que lembrar em YLiA é que toda a obra se passa em um período de um ano. Ela começa em abril, ou seja, na primavera japonesa e se encerra na primavera seguinte.

E esse é um ano importante para todos eles, pois é o último ano no colegial, eles estão se formando e isso faz eles precisarem encarar finalmente suas mentiras. O atleta precisa finalmente vencer ou aceitar que não era tão bom quanto todos pensavam, a amiga apaixonada precisa aceitar logo o que sente ou ele vai ir embora estudar em outro lugar, o garoto triste precisa finalmente decidir o que fazer da vida dele.

Só que eles são adolescentes, todos tem seus 14 ou 15 anos, então não é tão fácil aceitar que suas expectativas talvez não vão se realizar. Aceitar que as coisas realmente precisam mudar, pois essa é a vida.

Essa mudança já nos faz falar do Kousei, pois de todos os personagens ele é o que mais precisa mudar. A perda da mãe e o fato dele ligar o piano com todos os maus tratos sofridos acabaram criando um trauma muito forte nele. A cena onde a professora encontra ele, na época com 11 anos, trancado em um canto e chorando por não conseguir ouvir nada é muito marcante.

Eu gosto tanto de YourLie por causa da forma que o autor fez o Kousei enfrentar o seu trauma, é quase um tratamento de choque.

O primeiro volume nos dá a ideia errada de que ele irá superar os seus problemas apenas com a bela força do amor, conhecendo alguém que o anime e o faça querer tocar. E de certo modo esse é o primeiro passo mesmo, a paixão dele pela energia da Kaori faz ele querer enfrentar o trauma, o fato dela estar em pé ao lado dele no palco o motiva a tocar mesmo sem conseguir escutar o piano.

Mas então vem a doença da Kaori e todo o trauma é aumentando dentro dele. A música começa a se tornar uma maldição, já não bastava a música ter tirado a mãe dele, agora ainda vai tirar justamente o primeiro amor e a pessoa que tinha tirado ele da escuridão. Tudo estava se repetindo por “culpa” dele, ele é quem tinha feito algo errado por ter voltado a tocar, ele é quem não merecia a felicidade.

O autor trabalha muito bem esse peso ao repetir, agora com ele mais velho, a mesma cena dele sendo encontrado pela professora num canto.

A diferença é que dessa vez ele recebe o apoio de todos a volta dele para superar esse trauma, seja da professora, seja dos colegas de classe ou mesmo da própria Kaori. Ele aprende finalmente que a culpa não é dele, essas coisas infelizmente acontecem e ele precisa guardar os momentos felizes de tudo.

E aqui entramos na “grande mentira”, pois diferente de todas as outras, essa é uma mentira que acontece conscientemente, é uma mentira contada de modo proposital e implica em abrir mão de muitas coisas.

Eu vou colocar ela na área de spoilers pois ela é determinante na história. Então se não quiser saber, pulem até a próxima linha onde vamos falar da arte e do trabalho da Panini.


Bom, vocês se mantiveram lendo então vamos lá.

Nós temos dois spoilers pesados do final da obra para comentar e um depende do outro.

O primeiro é o mais esperado ao longo da história, mas não menos pesado: a Kaori morre. Ela não resiste a cirurgia e acaba morrendo enquanto o Kousei se apresenta.

A cena é linda, ele toca como se soubesse o que estava acontecendo e se despede.

Chegamos então no segundo spoiler que é a grande mentira da história, que é o que dá nome ao mangá e que só descobrimos no último capítulo em uma carta que ela deixou: tudo era um plano dela desde o começo.

Desde o começo ela já sabia que iria morrer, a doença dela era grave (não é confirmado, mas segundo teorias e pistas, tudo indica que seja ELA) e o médico já tinha informado que ela não ia sobreviver, no melhor caso uma cirurgia prolongaria mais alguns anos da vida dela. Sabendo disso, ela decide viver então o seu último ano de vida ao máximo. Ela come os doces que quer, ela muda seu visual e, principalmente, se aproxima do único amor da vida dela. Mas não, não era o Watari.

Descobrimos que desde o começo sempre foi o Kousei. Descobrimos que ela era uma aluna de piano, mas ao ver uma apresentação dele, ela mudou para o violino apenas para um dia poder tocar um dueto com ele. Ela se aproximou da Tsubaki não para conhecer o Watari, mas sim para finalmente conhecer o Kousei por quem era tão apaixonada.

Só que ela sabia que ia morrer e preferiu contar essa mentira, a grande mentira, para evitar que ele sofresse no fim de tudo.

E esse é o grande peso da mentira principal, é quando descobrimos tudo que a Kaori abriu mão apenas para ter esse ano ao lado dele. Todos os sentimentos que ela precisou esconder, todas as vezes em que ela fingiu gostar de outro garoto na frente dele, tudo isso porque ela sabia que iria morrer e não queria que ele sofresse mais ainda além do que tinha sofrido com a morte da mãe.

Como eu falei no CoV do volume 1, dessa vez eu li YourLie já sabendo do final da obra, eu já sabia a verdade. Foi interessante essa experiência e recomendo que façam também.

Desde o começo as pistas estão lá, a primeira página do volume 1 é a Kaori olhando o Kousei atravessar a rua. Depois vemos diversas dicas, seja quando ela foge do hospital para encontrar ele, quando ela escolhe passar com ele ao invés de esperar o Watari sair, quando ele conhece os pais dela e eles agem como fossem grandes fãs.

A própria capa do volume 1 mostra quem é que está guardando um segredo.

Estava tudo ali, a gente só não queria ver o óbvio.


Bom, falando da arte agora, eu gosto muito.

Um erro que eu cometi no último CoV foi dizer que Naoshi Arakawa era uma mulher, mas não, depois eu descobri que era um homem.

Eu gosto da arte dele. Ele consegue mesclar muito bem as cenas de comédia com as cenas mais sérias, migrando entre uma arte mais caricata e cômica para uma arte mais rica em detalhes com facilidade.

Temos as cenas de apresentação dos concertos e todo aquele medo sobre como ele faz para retratar música. Eu admito que foi muito melhor do que eu esperava ver essas cenas nos mangás, pois o Naoshi trabalhou bastante na arte, deixando o cenário mais rico em detalhes ao mesmo tempo em que mostrava a reação dos espectadores. Os sentimentos que cada um carregava em seus pensamentos, a descrição de como cada um estava recebendo aquela melodia, tudo isso nos ajuda a identificar o que ele está passando com a apresentação.

E a Panini? Como eu posso ser imparcial e avaliar o trabalho relaxado que a Panini fez com meu mangá favorito? Falando sério, eu já comentei isso diversas vezes e vou repetir. Eu não estou pedindo formato de luxo em Your Lie in April, eu só queria um trabalho decente.

O mangá foi publicado em papel jornal, mas isso não quer dizer que deveria ter sido tão ruim. A própria Panini possuí diversos mangás em papel jornal que possuem um ótimo acabamento, posso citar aqui de cabeça sem erro os exemplos de Psycho-Pass, Akame Ga Kill! e o Tokyo Ghoul: Re, mangás que foram lançados em papel jornal e que não tem nem metade dos problemas de qualidade que Your Lie teve.

Sei que vai parecer uma reclamação por eu amar a obra, mas estava porco demais. E não adianta me dizer que foi culpa da gráfica, a obra tem 11 volumes, a gráfica poderia ter errado no volume 1 e a editora corrigir o erro ao longo dos outros dez volumes. Ela não quis fazer, é simples, infelizmente é o que temos nesse caso.

Vou ser bem honesto com vocês, não é uma qualidade que vale o gasto, sem contar que os 3 primeiros volumes estão esgotados. Assistam o anime, a trilha sonora ajuda demais.

E se mesmo assim quiserem comprar o mangá, comprem com o pensamento de que a qualidade física está muito ruim. Mas tão ruim que eu vou ter que dar uma nota baixa para o meu mangá favorito, coisas que só a Panini consegue fazer.

Nota: 3,5 / 5,0

4 comentários

  1. Mangá absurdamente lindo. Extremamente sensível.

    Engraçado é que conforme vai relendo, você vai vendo as pistas do que está por vir e fica pensando, como eu não percebi isso?

    Por mais que eu tente, não consigo decidir qual é melhor KnK ou YLiA. Sem tirar o mérito de nenhum dos dois, pra mim, os dois são obras “perfeitas”.

  2. Meu primeiro contato com YLiA foi no anime e eu simplesmente fiquei apaixonado por ele, está no meu TOP10 de animes fácil e talvez seja até o primeiro colocado.

    O mangá eu estou lendo pela primeira vez com a edição da Panini e estou achando que o mangá não deve em nada para o anime, é perfeito também (sinto falta das músicas as vezes, mas coloco no youtube kk)… É uma pena que a edição possua uma qualidade tão porca como essa lançada pela Panini. Acho que é o mangá com a pior qualidade da minha coleção, infelizmente não recebeu a atenção que merecia da editora. Resta torcer para que num futuro distante seja republicado devidamente.

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