Comentando o Volume #168 – Astro City Vol. #02 – Confissão

Segunda-feira de Carnaval e a gente vai falar sobre o que? Exatamente, criaturas e seres fantasiados! Pois pode ser legal na vida real, mas é muito mais divertido no quadrinho! (Ao menos pra mim).

Continuando Astro City, hoje falo sobre o encadernado Confissão. É o segundo volume da obra publicada aqui pela Panini e continua nos mesmos moldes do volume anterior. Lá fora os quadrinhos são feitos a partir de “Volumes” que compreendem basicamente um grande “run” de um roteirista, mudando o Volume quando muda o roteirista ou quando a obra é finalizada, como é o caso de Astro City que acabou seu primeiro run em seis edições e como eu falei no CoV#166, portanto, a V2 inicia neste volume, mas não necessariamente na edição 1.
Esse encadernado conta com as edições 4 a 9 de Kurt Busiek’s Astro City V2 e a edição 1/2 de Wizards Presents Astro City.

Diferente de “Vida na cidade grande” onde cada capítulo representava uma história com inicio, meio e fim, “Confissão” conta uma história única em suas edições 4 a 9 e uma história especial na edição 1/2.

RCO001_1465458019

Brian Kinney é um adolescente que anseia por mais na vida, depois de ver seu pai morrer como um pobre médico que preferia ajudar as pessoas do que cobrar caro pelas consultas. Brian cresceu escutando de outras pessoas que o pai não era útil, que ele fracassou na vida e que podia ter ansiado muito mais do que o que realmente fez. Com isso em mente ele pensa que pode crescer na vida e ser muito mais do que o pai jamais fora, por isso ele parte para Astro City, a “grande cidade grande” onde há heróis, emprego e muitas oportunidades para o jovem. Logo que chega na cidade ele já procura um emprego em um bar na cidade baixa, mas o dono do bar vê algo grande nele e o manda solicitar emprego em um bar mais requintado, na parte rica da cidade.

É aí que a vida de Brian muda para sempre. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o garoto descobrindo a cidade e mostrando aos leitores que nem tudo é um mar de rosas, vemos também várias problemáticas que todas as cidades grandes tem. É um ótimo contraponto ao que o volume anterior apresentou. Em “Vida na cidade grande” temos uma Astro City maravilhosa, com os heróis protegendo tudo o que podem, a população extremamente feliz, fiel aos heróis, mesmo com todos os podres da cidade tudo parece funcionar de forma linda e eficaz, já em “Confissão” tudo vira de ponta cabeça. Talvez por estarmos lendo tudo pela visão do garotinho que veio do interior cheio de sonhos, mas é a faceta mais crua da sociedade que começa a nos encantar e nos fascinar mais ainda.

Em meio ao conhecimento da cidade percebemos que algo está errado. Algumas mulheres estão morrendo nas mãos de um serial Killer no Morro das Sombras e os heróis não estão dando conta, sendo praticamente impossível de encontrá-lo e com muita dificuldade em fazer com que o povo não tenha medo de sair nas ruas, já que temos uma ameaça não controlada. Além disso o prefeito da cidade decide que é hora do governo tomar ações para proteger os cidadãos e não dependerem apenas dos super heróis, apontando que algum deles deve ser o responsável pelo ataque às mulheres.

53323476_350428552229049_1983128271922921472_n

O volume conta com uma narrativa linear e completa, iniciando com um Brian bem jovem, ingênuo de certa forma, passando por vários problemas e situações complicadas onde ele precisa amadurecer. É impossível amadurecer sem ter que reavaliar o que a gente pensa e sente. Sempre temos tempo para questionar se nossas ações estão certas e se é aquilo ali mesmo que queremos para a nossa vida. Achei inevitável pensar em várias coisas durante a leitura, que prefiro não comentar justamente pra dar abertura para quem estiver lendo pensar em suas próprias questões.

Toda a história tem um tom mais pesado e obscuro, lembrando bastante o Batman e suas histórias. Principalmente pelos dois personagens centrais da história serem Brian e Confessor, um herói que serve como se fosse uma reencarnação ou uma reinvenção para o herói de Gotham, mostrando a sujeira da cidade e, ao mesmo tempo, sendo um herói duvidoso. Acredito que Astro City tenha muito a se fazer em referencias, boa parte dos heróis podem ser comparados com outros publicados pela Marvel e DC. O Samaritano seria o Superman, a Vitória Alada seria a Mulher maravilha, a Primeira Família seriam o Quarteto Fantástico, etc. E assim vai tornando a experiencia de leitura muito rica por fazermos essas comparações praticamente sem querer e funcionando tão bem.

Confessor é um herói cuja roupa é totalmente preta com um crucifixo branco no peito e batiza Brian com um nome de herói quando o recruta: Coroinha, dando a entender que seria como se fosse um ajudante de padre (E aí temos nosso Batman e Robin). Por mais estranho que soe no inicio, a gente se acostuma e percebe que a obra tem muitos tons religiosos onde ela gostaria de abordar, de forma respeitosa, sem apertar nenhuma ferida grande mas botando em prática os dizeres que as igrejas cristãs tanto pregam mas que pouco fazem. Em Astro City há um grupo chamado de Hibridos, onde todos atendem por nomes bíblicos como José, Pedro, Maria, Noé, Davi, e que são devotos de Deus. Eles praticam suas pregações e a história também mostra como eles são marginalizados e vistos como loucos.

RCO001_1465458200

Agora, em se tratando de uma história dos anos 90, muita coisa a agente já vê e pesca de forma que não parece tão fora do clichê assim. Mas mesmo assim não temos muita dificuldade em comprar aquele plot twist. Mesmo sendo óbvio, a cena da reviravolta nos pega desprevenidos e nos lota de emoções, fazendo com que não só o personagem Brian assim como os leitores fiquem de boca aberta esperando quais vão ser as próximas ações dos personagens.

Novamente, assim como no volume anterior, mesmo que tenhamos algumas coisas concentradas nos heróis, a narrativa é instigante e foca em todos os polos da sociedade. Nas histórias de herói que estou acostumado é geralmente sobre como os heróis convivem com heróis (Vingadores, Guardiões da Galaxia, My Hero Academia) ou como os heróis se misturam na sociedade (Superman, X-men), ambas as narrativas mostram heróis tendo que confrontar seus problemas internos e ameaças globais que podem acabar com o espaço-tempo, Astro City mostra o lado em que a sociedade se mistura com os heróis ao mesmo tempo que se preocupa em sobreviver à invasões alienígenas de uma forma completamente diferente da porrada que come solta nos padrões Marvel e DC. Talvez por ser bem diferente do que estou acostumado é que achei a revista tão maravilhosa.

Mesmo que Confissões seja quase que um oposto de Vida na cidade grande, vemos muitas ligações que fazem o leitor perceber que aquilo ali foi escrito de forma bem pensada. O universo não foi criado do nada e tirado da mente confusa do autor, mas planejado, discutido e cuidadosamente organizado.

RCO001_1465456049

Sobre a escolha do encadernado de não ter as edições iniciais mas começar o V2 pela edição 4, vem por conta do estilo narrativo. Assim como no V1, o V2 é composto por arcos. Antes tínhamos apenas 6 edições contando histórias diferentes, aqui temos um arco completo em algumas edições, porém, temos também arcos que se fecham em uma edição apenas, para fazer com que os encadernados contenham histórias semelhantes ou fechem histórias completas, como é o caso deste, acho que a escolha foi acertada. Já no próximo encadernado, chamado de “Álbum de família”, a gente percebe essas diferenças entre capítulos, já que ali temos histórias que se finalizam em uma única edição, outras que pegam duas ou mais edições para contar o necessário e o encadernado junta essas histórias que tem como tema central as famílias.

Recentemente adquiri (quase) todos os encadernados de Astro City, me faltando apenas o volume 6, que está caríssimo nos grupos e mercado livre. Como são em maioria leituras únicas ou com arcos fechados na mesma revista prefiro comentar dessa forma em encadernados em “CoV” do que juntar tudo em um “maratonando”, já que os volumes são bem diferentes entre si.

Acho que a melhor coisa de Confissão é que você pode pegar sem ter lido o volume anterior e compreender de forma perfeita tudo o que acontece ali. A história de Brian finaliza na edição 9 e no encadernado temos a edição 1/2 que cria em poucas páginas uma “crise nas infinitas terras”. Mostrando passado presente e futuro se misturando e fazendo uma reconstrução do universo de Astro City sem que o autor precise fazer com que conheçamos em totalidade os personagens em questão. Simplesmente épico.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s