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Review #63 – Nijigahara Holograph

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“Acho que não vou conseguir fazer outra obra como essa”

Essas são as palavras do próprio autor, e é com elas que começamos nosso post nessa nublada quinta-feira, um post para comentarmos não apenas uma obra, mas também o que caracteriza uma como “obra-prima”. E esse vai ser um longo post.

Nijigahara Holograph é uma obra de Inio Asano, mesmo autor de Solanin, e que foi publicada em 2003 nas páginas da Quick Japan. A obra é volume único e chegou no Brasil agora em novembro pela JBC.

Não consegui utilizar minhas palavras para criar uma sinopse, por isso resolvi seguir o que diz o site da editora:

Em meio a uma inexplicável proliferação de borboletas, rumores sobre a existência de um monstro vivendo – e atacando crianças – no túnel da ponte atrás da escola se espalham. Aos poucos, Inio Asano revela com maestria a verdade nua e crua escondida no interior do ser humano quando um traumático acidente ocorrido há 10 anos volta à tona. Professores, alunos, pais, filhos, agressores e vítimas. Ninguém está isento à tragédia que ronda a todos há uma década. No caminho em busca da redenção, repleto de violência e abusos, talvez apenas a perdição seja alcançada por cada uma dessas pessoas. Com sua arte soberba, Inio Asano revela o impacto do acidente e como este influenciou – e influenciará – a vida desses personagens.nijigahara_holograph_1477076198590964sk1477076198b

Como eu vou fazer para comentar Nijigahara Holograph? Honestamente eu não sei.

Eu li o meu volume sábado de manhã e a primeira sensação foi “que merda foi essa?“. Li mais alguns mangás depois e a obra não saia da minha cabeça, algo estava me incomodando ali. Peguei ele de novo para ler, com mais calma, relendo cada trechinho como todo o cuidado que conseguia.

Nessa segunda leitura já se abriu uma nova visão, porém foi apenas na terceira leitura (e após ver um blog sugerindo a ordem cronológica) é que Nijigahara se abriu completamente pra mim. E se tornou uma das melhores coisas da minha estante.

Vou ser direto, ele não é pra todo mundo. Eu não gosto de utilizar estereótipos, mas não tem como, pois Nijigahara Holograph não é para quem lê “gibi” ou acha Naruto um dos 10 melhores de todos os tempos. Longe disso, correndo o risco de parecer exagerado (ou não), Nijigahara seria o Sandman dos mangás, uma obra muito mais elevada do que o simples mainstream.

A montagem da obra é confusa demais, todos os eventos estão embaralhados. Passado, presente e até futuro rolam ao mesmo tempos, sem mudanças que anunciem. Também temos muitas mudanças de protagonistas, e a arte do Asano não ajuda muito pois quase todos são muito parecidos. Esse é provavelmente o maior motivo para acharmos a obra chata de começo, pois ficamos confusos demais.

Aparentemente temos dois núcleos paralelos rolando.

No primeiro temos o aluno transferido, Suzuki. Um garoto que após sobreviver a uma tentativa de suicídio, enfrenta problemas em se adaptar na nova escola e confiar nas pessoas. Essa história dele se passa na maior parte do tempo durante o passado.

No segundo núcleo da história temos mais personagens envolvidos e todo o esqueleto da história. Ela envolve maioria dos personagens, embora tenha um foco maior em Komatsuzaki, um garoto que na infância era um deliquente, mas que após sua colega de classe Arie sofrer um acidente que a deixou em coma, mudou completamente até se tornar alguém recluso e com problemas de convívio social.

É muito difícil comentar NH sem entrar muito na história e revelar mistérios que removeriam a graça da obra, então cuidado, vai ter um SPOILER aqui. Embora a obra envolva o sobrenatural, como as borboletas, espiritismo e a viagem no tempo, a solução dela é incrivelmente humana e cruel.

Essa maldade humana, quando finalmente entendida, é pesada demais. Me arrisco em dizer que é uma das obras que mais me causou mal estar de tudo que já li, pois mostra uma das piores coisas das pessoas: a obsessão. Ela é retratada de diversas formas aqui, no pai da Arie ou no dono do café.

Também mostra como nossas atitudes envolvem os outros de maneiras que não percebemos. Será que se a professora tivesse tomado outra atitude sobre o estupro nada disso teria acontecido? Será que se alguém tivesse impedido o bullying na sala de aula as coisas não fossem diferente? E se os pais não tivessem separado as crianças?

Isso mostra como muitas vezes não nos importamos com o que pode acontecer aos outros, pensamos apenas em nós mesmos e nossos sofrimentos, como se ninguém mais tivesse nenhum problema. FIM DO SPOILER
cc-niji
E aqui eu vou começar a falar de algo que eu pensei muito após ler Nijigahara pela terceira vez: o que é uma obra-prima?

Agora nós chegariamos ao final do post, onde eu daria a nota e iria falar que é o uma obra obrigatória em qualquer coleção. Mas então me peguei pensando: “será que posso dizer que ele é uma obra obrigatória?”

Por mais que eu tenha amado Nijigahara e ele fique possivelmente entre os meus 10 ou 15 favoritos, será que posso mesmo dizer que é indiscutível e obrigatório? Eu nunca tive essa dúvida quando vinha fazer uma recomendação no blog e NH me deixou com ela. Ele me deixou com receio de recomendá-lo, pois é uma obra muito, mas realmente muito fora do normal.

A linha que separa o épico do horrível é muito, mas realmente muito fina em Nijigahara Holograph. E não é daquele tipo que “você não entendeu”, porque mesmo entendendo o obra, a facilidade para achar ela ruim e sem sentido é a mesma para se considerar uma obra épica.

E ai entra a comparação que fiz com Sandman, pois o título rompe um pouco o que estamos acostumados no cenário. Por mais que leitores de HQ estivessem acostumados com obras mais “cabeça” como Hellblazer, Sandman extrapolou ainda mais. O mesmo aqui, por mais “seineen” que você seja com obras do Urasawa ou Homunculus, Nijigahara é algo passa disso e vai num limite que se torna indescritível, seja positivamente ou negativamente.

Eu vou dar o meu veredito pessoal: é monstruoso e tem que ser lido, tem que estar em qualquer estante.

Porém ao mesmo tempo, eu entendo completamente quem disser que é perda de tempo e desperdício de dinheiro. Também não vou ofender dizendo “ah, bom é Naruto então“, pois sei que NH não é pra todo mundo, se Berserk com toda sua pancadaria já não é, imagina Nijigahara e toda a sua “criatividade” e reflexão.

Nota: 5 / 5

Para finalizar, o trabalho da JBC está muito, mas realmente muito bom.

As capas foscas com o amarelo ficaram ao mesmo tempo discretas e chamativas. O offset está muito bom, as vezes eu dou razão ao Cassius quando ele fala em “sommelier de papel”, porque o pessoal está chato demais. Reclamar do papel de Sidonia e Orange é uma coisa, reclamar de Nijigahara é piada.

Para mim, esse é o melhor mangá “de linha” que a JBC já publicou. Valeu cada centavo para mim.