Comentando o Volume #100 – Sandman: Edição Definitiva vol. 1

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Quando termina o contar de histórias e começa a mitologia?

Com essas palavras escritas por Paul Levitz é começamos nosso 2017 aqui no blog. Esse é post especial, além de ser nosso primeiro nesse novo ano, é também o centésimo CoV do blog. Quando cheguei por volta do 88/90 eu já me peguei pensando em que obra utilizar para esse número 100: o primeiro Blame!? Normal demais. O primeiro Slam Dunk? Uma opção, mas ainda faltava algo. Após pensar muito, achei o que poderia (na verdade DEVERIA) ser justo na obra mais inesperada e que até meses atrás nem cogitei ter na estante.

SANDMAN, a obra prima de Neil Gaiman e por muitos considerada o ápice dos quadrinhos mundiais (e não estariam certos?). A obra começou a ser publicada em 1988 pelo selo Vertigo, um selo mais “adulto” da DC Comics, e perdurou até 1996, sendo finalizado com 75 volumes, além de ter rendido anos mais tarde outras séries paralelas.

A obra narra as sagas de Sonho (ou Morpheus, Sandman e outros tantos nomes), um dos sete perpétuos e que rege o mundo dos sonhos. A obra se divide em 10 “arcos”, independentes em suas histórias, mas ao mesmo tempo sutilmente interligados.

Esse primeiro volume da edição definitiva (são 4 ao todo) nos traz os três primeiros arcos: “Prelúdios e Noturnos”, “Casa de Bonecas” e “Terra dos Sonhos”.20170102_1929021

Tudo começa quando uma seita realiza um ritual para aprisionar a perpétuo Morte, mas algo sai errado e eles capturam seu irmão Sonho. Removendo todos seus artefatos de poder, ele mantém Morpheus cativo por longos 70 anos. O problema é que a prisão do senhor dos sonhos acarreta em graves consequências para o mundo todo, pois muitas pessoas não conseguem mais dormir por conta dos pesadelos sem controle, enquanto outras se mostram incapazes de acordarem dos seus mais belos sonhos.

Após finalmente de sua prisão e realizar sua vingança, Sonho parte em busca de seus artefatos de poder, além de precisar recuperar Sonhar, seu reino dos sonhos e que ficou abandonado durante seus anos de cativeiro, e corrigir todos os problemas causados por sua ausência.

A frase que coloquei na abertura do post é dita por Paul Levitz na introdução da obra. Paul foi convidado para tentar descrever Sandman nas primeiras páginas e faz isso de forma genial. O questionamento que ele nos faz é algo que fica em nossa cabeça ao longo de toda a leitura: quando deixa de ser apenas uma história e se torna um mito?

Neil Gaiman ultrapassa essa barreira do “contar apenas uma história” e começa a flertar com o mitológico, com o épico. Eu já li muita coisa, só na minha coleção tenho mais de 1000 volumes lidos, e mesmo assim não tinha lido nada como Sandman. A obra é diferente em tudo, sua história é algo mais denso e reflexivo, sua narrativa também rompe com o comum dos quadrinhos e sua arte é algo monstruoso.

A narrativa tem vários “protagonistas” ao invés de seguir apenas o Sonho. Na verdade, maioria dos capítulos desse primeiro volume possuem outros personagens narrando a história, seja o sequestrador de Morpheus, ou Constantine e até mesmo uma gata comum. Algo interessante é ver como quase todos os personagens são incrivelmente cativantes e “gostosos” de acompanhar em suas histórias, até mesmo antagonistas como Coríntio conseguem causar um certo fascínio no leitor, e como não se apaixonar pela Morte? De longe a minha favorita.

Tem ainda dois pontos bem bacanas de comentar na narrativa e que de certa forma já tocam na arte.

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O primeiro ponto são os balões de fala. Os personagens “não humanos” possuem balões personalizados, Morpheus tem balões negros com letras brancas, Lúcifer tem o balão branco mas com letras estilizadas. Isso cria uma identidade no personagem, é impossível não ler as falas de Sonho sem imaginar uma voz grave e sem sentimento, assim como ler as do arcanjo caído e não imaginar alguém falando cheio de rodeios e meio “cantado”. Ao mesmo tempo, temos outra sacada genial aqui, pois a Morte possui um balão comum, igual ao de todos os humanos, afinal, qual a coisa mais humana que não a própria morte?

O segundo ponto para se destacar na narrativa/arte de Sandman é a quebra das paredes dos quadrinhos. Aquela estrutura básica de quadros retos não existe aqui. Ao invés disso, o que vemos é um aproveitamento incrível das páginas, com arte em quase ela inteira, em casa espacinho ou canto. Também não vamos aquela coisa reta e contínua, longe disso, vemos curvas, quadros sobrepostos, arte embaralhada e páginas que “giram” (olhem as imagens para entender). Mas mesmo essa “confusão” na arte não atrapalha a leitura, claro, inicialmente causa uma estranheza, mas com o passar das páginas nós vamos nos acostumando e ficando mais encantados em aprecia-la.

A arte de Sandman é linda, cheia de detalhes ao extremo. Na verdade, desde sua capa e contracapa já conseguimos perceber que é algo especial, essa capa com o olho do pássaro e do protagonista se unindo é linda, enquanto na ultima capa vemos um belo mosaico, retratando de certo modo o que é um sonho. Nas páginas internas vemos algo inimaginável. Não temos apenas um artista em Sandman, são vários, cada um emprestando seus traços, embora essas mudanças não sejam tão perceptíveis ao ponto de atrapalhar a leitura.

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E as histórias não perdem em nada para o resto da obra.

Elas são pesadas e fortes, para vocês terem uma noção, uma delas se passa dentro de uma convenção de serial killers, enquanto outra conta o dia de um perigoso vilão que usa o poder de Morpheus para escravizar seis pessoas durante horas.

Mas no geral, as histórias são para se refletir. Eu quero destacar duas que rapidamente se tornaram as minhas favoritas e até mesmo já as reli de tanto que gostei. Ambas são capítulos “soltos” dentro do grande arco que está acontecendo, mas mesmo assim são de um trabalho incrível em suas ideias.
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A primeira se chama “O Som de Suas Asas” e é a primeira história onde vemos a Morte como personagem, pois até então ela era apenas alguém de quem se falava. Essa história se passa logo após Sonho ter recuperado seus poderes e vemos ele sentado em um parque alimentando pombos. Morte surge como a irmã mais velha que precisa “sacudir” o mais novo para a vida. É incrível como o leitor (principalmente se for um irmão mais velho) consegue se identificar com ela, pois ela é completamente humana. Por fim ela resolve levar Sonho junto enquanto faz seu “trabalho diário” como uma lição para ele entender suas responsabilidades como um dos perpétuos. Algumas cenas são lindas, como quando Sandman comenta que apenas escuta o som das asas da irmã e vemos ao fundo a imagem de grandes asas negras. A história nos faz pensar em como a morte é algo tão comum (afinal, é a única certeza que temos), mas ao mesmo tempo tão temida pelas pessoas.

A segunda história se chama “Homens de Boa Fortuna”. Nessa história acompanhamos os encontros entre Morpheus e um humano chamado Hob. Tudo começa quando, em 1399, Sonho e Morte bebiam em uma taverna e escutavam os humanos conversarem, um desses humanos era Hob, um cara que dizia achar a morte uma besteira e que não pretendia se entregar a ela. Os dois perpétuos decidem então “brincar” com o humano e lhe dão a “honra” de não morrer até desejar. Sonho então faz um acordo com Hob, de que eles devem se encontrar no mesmo lugar e no mesmo dia a cada cem anos. Acompanhamos então os 6 encontros deles (até 1999) e vemos as mudanças, não apenas de Hob, mas do mundo inteiro ao longo dos séculos. Uma sacada bem bacana é ver as roupas das pessoas e as referências das histórias com as épocas, como o até então desconhecido Will Shakespeare, ou quando Sonho caminha nas ruas noturnas de Londres e alguém se assusta achando que era Jack Estripador. Nessa história vemos como nossas vidas são curtas e como o mundo tem coisas para serem vistas, é incrível perceber como em nenhum momento Hob parece se arrepender de viver para sempre, nem mesmo quando perdeu tudo que tinha e vivia mendigando, mesmo assim ele mantem a chama de que “ainda tenho muito para ver”.20170102_1933111

Bom, eu disse que esse seria um textão e já me encaminho para quase 1500 palavras. Agora chega o momento crucial: recomendo ou não? Me dói demais dizer isso, mas não, não recomendo Sandman para todos vocês.

Alguém deve ter pensado agora “Como assim, tu bebeu?“, mas a verdade é que não tem como no atual momento das pessoas eu recomendar Sandman. Ele é sim uma leitura obrigatória, porém não é uma leitura possível para maioria das pessoas por dois motivos.

O primeiro é sua narrativa e todas as coisas que já comentei. Ele é diferente demais, para se poder ler Sandman a pessoa tem que ter uma cabeça bem aberta para o estranho e diferente. Eu não gosto de comparações que reduzam a importância de obras, mas é impossível ler Sandman quando você tem cabeça de Naruto e Vingadores, não vai funcionar e você vai odiar o que ler. Claro, não posso generalizar e dizer que todos vão odiar, também não posso dizer que “Se você gosta de Sandman você é um ser evoluído”, longe disso, o que quero dizer é que Sandman é muito diferente, é muito além da caixinha, é como tentar assistir Laranja Mecânica quando você só está acostumado com os filmes da Disney.

O segundo motivo é talvez o mais forte: Sandman não é acessível. Atualmente, a única forma de se obter Sandman é comprar essa edição definitiva. O problema é que cada volume custa R$ 145,00, isso são dez volumes de mangás da Panini e JBC (na média mais barata). Claro, existem descontos, eu mesmo paguei R$ 79,90 na Amazon. Mas mesmo assim, são 80 golpinhos para se pagar em uma única edição, multiplica pelos quatro volumes e sai mais de 300 reais mesmo com desconto.

Óbvio que a edição vale esse valor, ela tem quase 700 páginas, capa dura e um papel incrível. Mas que tem esse valor para investir? Eu só comprei por causa da promoção e porque minhas férias renderam uma grana extra. Mas eu posso recomendar que alguém que se dobra para comprar 5 ou 6  mangás com sua mesada compre algo como Sandman? Não posso.

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Agora, se você tem condição de comprar e quer ler algo bem fora da caixa, invista em Sandman. Pode ter certeza que a sua percepção de tudo vai mudar muito, Sandman é uma explosão em todos os sentidos de arte.

Pra mim, Haag, numa opinião bem pessoal:

Sandman é a melhor coisa que já se criou na literatura mundial. Ele deixou de “contar uma história” e se tornou uma mitologia com certeza.

Acho que nunca irei ler algo melhor que ele.